Havana recebe primeira tranche de ajuda dos Estados Unidos
O primeiro carregamento de ajuda humanitária do pacote de 100 milhões de dólares (cerca de 87,6 milhões de euros) anunciado por Washington chegou ontem a Havana, num contexto de tensão diplomática entre os dois países.
A ajuda foi recebida e vai ser distribuída pela Cáritas cubana, após ter chegado ao Aeroporto Internacional José Martí, em Havana.
A Cáritas "vai canalizar 60 milhões" dos 100 milhões de dólares em ajuda, que inclui "conjuntos alimentares e de higiene que vão beneficiar 700 famílias da arquidiocese de Havana" e cuja distribuição "vai ser realizada de acordo com os critérios de vulnerabilidade estabelecidos para este tipo de ajuda".
Além disso, a Cáritas salientou que "a entrega às famílias vai ficar a cargo de voluntários das comunidades paroquiais" e vai ser realizada com "uma abordagem de respeito e acompanhamento próximo aos beneficiários, dando prioridade à transparência e ao tratamento humano em cada comunidade".
Os Estados Unidos enviaram este primeiro carregamento, composto por 18 toneladas de 'kits' de higiene e alimentos, no âmbito do compromisso assumido em maio pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.
"Vamos entregar ajuda tanto por via aérea como por via marítima", afirmou o subsecretário de Estado para a Ajuda Externa, Assuntos Humanitários e Liberdade Religiosa norte-americano, Jeremy Lewin, numa cerimónia no Aeroporto Internacional de Miami, momentos antes da partida do avião, precisando que o carregamento inclui alimentos como arroz, feijão, óleo de cozinha, artigos de higiene e lanternas.
Esta primeira parte da ajuda chegou à ilha numa semana marcada pela tensão entre ambos os países, na sequência da publicação, na segunda-feira, do relatório norte-americano de 100 páginas, intitulado "Cuba. A capital do comunismo no século XXI".
A este respeito, o ministro dos Negócios Estrangeiros cubano, Bruno Rodríguez, reiterou a rejeição "nos termos mais veementes" do relatório publicado a 20 de julho.
Trata-se de "um panfleto de propaganda medíocre que pretende reforçar a mensagem mentirosa de que Cuba constitui uma ameaça para os Estados Unidos", disse.
Rodríguez denunciou que o documento, no qual Havana é acusada de tentar "minar, degradar e desestabilizar os Estados Unidos" com espiões e soldados, bem como com estudantes, intelectuais e organizações não-governamentais (ONG), "procura, através da construção de narrativas acusatórias, criar consenso para uma eventual agressão militar" contra a ilha.
Também o Presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, acompanhou as críticas a este relatório e acusou os Estados Unidos de "recorrer à mentira" para "criar pretextos que justifiquem as agressões contra Cuba".
Díaz-Canel argumentou que Cuba "nunca agiu com o intuito de prejudicar o povo norte-americano, nem se propôs a afetar a segurança nacional dos Estados Unidos"
"O que a Revolução Cubana tem feito ao longo da sua história é defender-se destas sucessivas e intermináveis agressões, por direito legítimo", escreveu numa longa mensagem.
A escalada das tensões entre Washington e Havana acontece num dos piores momentos das relações bilaterais, marcadas desde janeiro por um bloqueio petrolífero imposto por Washington à ilha e por sanções adicionais a pessoas ou empresas que mantenham relações com o Governo cubano.
O relatório da administração do Presidente norte-americano, Donald Trump, reitera ainda que a ilha alberga "um número crescente de instalações militares, de serviços secretos e terroristas estrangeiros", um dos argumentos invocados pelo Governo norte-americano para fundamentar o decreto-lei de 29 de janeiro que declarava Cuba uma "ameaça invulgar e extraordinária" e instituía o bloqueio petrolífero.
Trump afirmou já, em várias ocasiões, que depois de resolvido o conflito com o Irão vai "tratar de Cuba", admitindo a vontade "de tomar" a ilha caribenha.