Uma fotografia enviada por um leitor ao DIÁRIO mostra um poço (tanque de água de rega) destapado, em Santa Luzia, com água acumulada e com uma camada de pequenas plantas aquáticas à superfície. A imagem, por si só, não permite concluir que aquele local constitua um criadouro do mosquito Aedes aegypti, mas serve para recordar uma realidade que continua bem presente na Madeira: eliminar os locais onde o mosquito se pode reproduzir continua a ser a forma mais eficaz de prevenir doenças como a dengue.
O Aedes aegypti foi detectado pela primeira vez na Madeira em 2005, precisamente na freguesia de Santa Luzia. A sua presença veio alterar a forma como as autoridades de saúde passaram a olhar para pequenos reservatórios de água espalhados pelo território. Sete anos depois, em 2012, o arquipélago registou um surto de dengue, o primeiro ocorrido em território português em muitas décadas, levando ao reforço dos programas de vigilância e controlo da espécie. Desde então, o acompanhamento do mosquito mantém-se de forma permanente, através de armadilhas, monitorização e campanhas de sensibilização dirigidas à população, coordenadas pelo Instituto de Administração da Saúde (IASAÚDE).
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o Aedes aegypti não necessita de lagoas, charcos ou grandes massas de água para completar o seu ciclo de vida. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a espécie adaptou-se particularmente bem aos ambientes urbanos e utiliza pequenos recipientes ou reservatórios onde a água permanece acumulada durante alguns dias.
É por essa razão que depósitos de água, tanques de rega, poços, bidões, baldes, pratos de vasos, pneus, caleiras obstruídas e outros recipientes capazes de reter água podem transformar-se em potenciais criadouros. Basta que a água permaneça durante tempo suficiente para que as larvas completem o seu desenvolvimento.
O ciclo inicia-se quando a fêmea deposita os ovos junto à linha de água. Esses ovos podem resistir durante vários meses em superfícies secas e eclodem quando voltam a ficar submersos. Seguem-se as fases de larva e de pupa, até surgir o mosquito adulto. Em condições favoráveis de temperatura, todo este processo pode ficar concluído em cerca de uma semana, razão pela qual as autoridades de saúde insistem na eliminação precoce dos criadouros.
A presença de alguma pastinha, algas ou outra vegetação superficial, como parece acontecer no reservatório fotografado, também não permite tirar conclusões. Embora o Aedes aegypti revele preferência por água relativamente limpa, isso não significa que apenas se reproduza em água cristalina. Da mesma forma, a existência de água parada não significa necessariamente que existam larvas, nem muito menos que pertençam a esta espécie.
Segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), a identificação do Aedes aegypti exige observação técnica das larvas ou dos mosquitos adultos, pelo que uma fotografia de um reservatório nunca permite confirmar a presença da espécie.
Importa igualmente distinguir a presença do mosquito da existência de doença. O Aedes aegypti é o vector da dengue, da zika, da chikungunya e da febre-amarela, mas não nasce infectado. Para haver transmissão da dengue é necessário que o mosquito pique uma pessoa infectada pelo vírus e, posteriormente, outra pessoa susceptível. Assim, um potencial criadouro não corresponde, por si só, a um foco de doença.
Foi precisamente a experiência vivida pela Madeira em 2012 que levou ao reforço das campanhas de prevenção. Desde então, o IASAÚDE tem apelado regularmente à colaboração da população na eliminação de recipientes onde a água possa permanecer acumulada, lembrando que uma parte significativa dos criadouros é encontrada em propriedades privadas.
A prevenção passa, muitas vezes, por medidas simples. Sempre que possível, depósitos e tanques devem permanecer tapados ou protegidos com redes adequadas. Os recipientes que não tenham utilização devem ser esvaziados ou removidos, as caleiras mantidas limpas e os pratos colocados sob vasos esvaziados regularmente. Nos reservatórios destinados à rega, muito comuns na Madeira, importa reduzir, sempre que possível, o acesso dos mosquitos à água, sem comprometer a sua função.
O caso partilhado pelo leitor não permite concluir que exista um problema concreto naquele local. Serve, contudo, para recordar que o combate ao Aedes aegypti começa muito antes do aparecimento de qualquer caso de doença. A vigilância das autoridades é essencial, mas continua a depender também da atenção dos cidadãos e da eliminação dos potenciais criadouros existentes junto das habitações, nos jardins e nas explorações agrícolas.
Num território onde o mosquito está instalado há duas décadas e onde já ocorreu um surto de dengue, a prevenção continua a ser a melhor forma de proteger a saúde pública.