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Produtividade e rendimentos dos trabalhadores portugueses

O mais difícil é compreender porque é que os salários são cerca de 35 a 38% inferiores aos da média europeia

Quase diariamente ouvimos ou lemos notícias sobre a baixa produtividade dos trabalhadores em Portugal e como esta baixa produtividade leva aos seus baixos rendimentos quando comparados com a média de rendimentos na União Europeia. Penso que todos compreendemos que se a sua produtividade é 25 a 30% inferior à média europeia, então não podem ambicionar ter os mesmos rendimentos. O mais difícil é compreender porque é que os salários são cerca de 35 a 38% inferiores aos da média europeia. Neste artigo de opinião vou apresentar alguns exemplos e levantar algumas questões que podem contribuir para a discussão dos baixos rendimentos em Portugal.

1. Os trabalhadores portugueses não trabalham menos horas semanais do que a média europeia. Não é por trabalharem pouco que a produtividade é menor em Portugal.

Como os trabalhadores não são máquinas não vejo que aumentos de horários de trabalho levem a grandes aumentos de produtividade, porque além do cansaço inerente a jornadas mais longas haverá uma maior desmotivação dos trabalhadores.

2. Os trabalhadores portugueses quando emigram tornam-se tão produtivos (ou até mais) do que os trabalhadores nos países de destino com produtividades das mais elevadas da Europa.

Não havendo provas que são os portugueses mais produtivos que emigram, o que se passa é que os emigrantes têm acesso a maquinaria que não tinham em Portugal, o que faz com que aumentem o que conseguem produzir.

A quantidade produzida não depende só do trabalhador, mas também do capital que lhe é dado para efetuar as suas funções; não podemos comparar a produção de um trabalhador agrícola a ceifar com uma foice e a do mesmo trabalhador a ceifar com uma grande máquina.

3. A produtividade não se mede na quantidade produzida, mas no valor acrescentado do que é produzido. Assim se Portugal se continuar a especializar em sectores com baixo valor acrescentado, é impossível os trabalhadores verem os seus salários aproximarem-se da média europeia.

Muitas vezes os emigrantes vão efetuar nos países de acolhimento trabalho semelhante ao que faziam em Portugal, só que nesses países o que produzem é muito mais valorizado.

4. Não podemos deixar de referir a distribuição funcional do rendimento onde a percentagem do valor acrescentado que vai para os trabalhadores é menor em Portugal quando comparada com a média europeia. Haverá que estudar as razões para tal se verificar, sendo que uma delas pode ser a escassez de capital para investir.

5. Não podemos esquecer o papel da fiscalidade que reduz o rendimento disponível dos trabalhadores; mesmo indivíduos com baixos rendimentos suportam taxas muito elevadas de impostos.

Podia acrescentar muitos outros pontos, mas penso que estes são suficientes para se compreender que enquanto não se olhar de frente o problema do valor acrescentado não deixaremos de ser um país onde, mesmo trabalhando muito, é difícil viver.