DNOTICIAS.PT
Guerra no Irão Mundo

EUA ignoraram provas de apoio russo a Teerão por "confiarem" em Putin, diz Zelensky

None

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou hoje que o Governo norte-americano ignorou as provas do apoio russo ao Irão na guerra no Médio Oriente porque "confia" no Presidente russo, Vladimir Putin.

Em entrevista à estação pública italiana RAI, hoje transmitida, Zelensky detalhou ter alertado o governo de Donald Trump para imagens de satélite de infraestruturas energéticas e instalações militares em Israel e nos países do Golfo que a Rússia terá fornecido ao Irão para facilitar os seus ataques. 

"O problema é que confiam em Putin. É uma vergonha", lamentou.

"Disse-o publicamente. Notámos alguma reação dos Estados Unidos em relação à Rússia, uma reação do tipo 'têm de parar com isto tudo'?", questionou Zelensky.

Na entrevista, o Presidente ucraniano abordou a relação que mantém com o homólogo norte-americano desde a sua tumultuosa visita à Casa Branca no final de fevereiro de 2015, considerando-a "boa" e fruto da necessidade mútua.

"Não há muitas pessoas que possam dizer ao Presidente dos Estados Unidos que nem sempre tem razão", assegurou Zelensky.

 "Eles precisam de nós e da experiência que adquirimos durante estes anos de guerra", declarou.

Relativamente às negociações mediadas pelos norte-americanos com a Rússia, Zelensky afirma-se confiante de que poderão ser retomadas rapidamente, agora que Washington conseguiu chegar a um acordo de cessar-fogo com Teerão, e reiterou estar "pronto" a reunir-se com Vladimir Putin. 

"Certamente não [um encontro] em Moscovo ou Kiev. Mas se ele estiver disposto a encontrar-se comigo, há muitos lugares para isso. Podemos encontrar um no Médio Oriente, na Europa, nos Estados Unidos, em qualquer lugar", disse.

Estas negociações continuam focadas no estatuto dos territórios ocupados pela Rússia, que continua a ser um grande ponto de atrito. 

"Não podemos simplesmente falar em entregar o Donbass", reiterou Zelensky, acerca da região histórica do leste, composta por Donetsk e Luhansk.

"Que garantias de segurança teremos se a Rússia decidir avançar novamente? Talvez não imediatamente, ou talvez ataque novamente daqui a dois ou três anos. Também queremos que as garantias de segurança incluam uma presença europeia e americana", observou, referindo-se a outra exigência da Ucrânia nas negociações.

Zelensky afastou ainda a convocação de eleições até que a segurança da população esteja garantida, incluindo a dos "soldados que precisam de votar", e manifestou o seu desejo de que a Ucrânia continue a receber armas e que os Estados Unidos restabeleçam o mais rapidamente possível as sanções ao petróleo russo, que foram levantadas devido à crise energética provocada pela guerra no Irão. 

Numa reunião posterior com media ucranianos, Zelensky abordou a questão do Donbass em resposta às críticas do vice-presidente dos EUA, JD Vance, que esta semana em Budapeste pareceu minimizar as aspirações da Ucrânia, que criticou por continuar a insistir "em alguns quilómetros quadrados".

"O vice-presidente, com todo o respeito, não está envolvido nas negociações entre os Estados Unidos, a Ucrânia e a Rússia", observou Zelensky, acrescentando acreditar que, se estivesse, Vance e "outros funcionários" compreenderiam muito melhor a importância de reivindicar o território que é ucraniano.

"Cada metro quadrado do nosso território é ucraniano. E, com todo o respeito pelos nossos parceiros, não é definitivamente vosso", acrescentou.

Caso esta parte do país seja cedida, a Rússia usá-la-ia como plataforma para novos ataques, pelo que as garantias de segurança são vitais, disse o líder ucraniano.

A Rússia invadiu a Ucrânia a 24 de fevereiro de 2022, com o argumento de proteger as minorias separatistas pró-russas no leste e "desnazificar" o país vizinho, independente desde 1991 - após a desagregação da antiga União Soviética - e que tem vindo a afastar-se do espaço de influência de Moscovo e a aproximar-se da Europa e do Ocidente.