‘Não’ morreu, só desencarnou

Muito já se disse sobre a obra literária de António Lobo Antunes, que ‘não’ morreu, só desencarnou. Nestas ocasiões só se fazem discursos laudatórios...

Testemunharei: desde a ocasião, em que disse: ‘’o melhor primeiro-ministro foi Cavaco Silva’’(!), deixei de ler (só) os seus livros. Fiquei-lhe com a azarina. Na realidade, este foi o pior malfeitor desgovernante para as classes da base social. Destruidor da ferrovia; da agricultura; da indústria, das pescas e, por aí adiante. Um propalado escritor, influente e influenciador fazer aquela afirmação fez brutal mossa.

Durante o seu exercício, como psiquiatra no Hospital Miguel Bombarda, fui lá visitar um amigo internado e, no recreio avistámo-lo a chegar ao carro, exclamei: ‘Olha o escritor, Lobo Antunes!’, indo a dirigirmo-nos para ele. Parado, fitou-nos e fez-nos com o olhar uma barreira. Não avançámos e muito lamentámos.

Foi um açambarcador de Prémios Literários, tendo de sobremaneira invejado(!), José de Sousa Saramago, nobilizado com o Prémio Nobel da Literatura.

Há um bom par de anos, fui assistir a um lançamento de um seu livro, em Oeiras, apresentado por, Carlos Vaz Marques, tendo ido com uma estudante de linguística. Ela dirigindo-se a ele, comigo, disse ao que ia e, de rompante, Lobo Antunes, disse: ‘’ Olhe que ele (eu) quer namorá-la’’(!). Cortou-me o barato.

Contudo, não perdia as suas entrevistas ou alocuções, como mensageiro. Respeitava-o como ex-combatente na Guerra Colonial, deixando-o com traumas!

Foi capaz de nos inocular o vírus benigno da leitura, da linguajem e da escrita. As entrevistas na RTP2, concedidas a Fátima Campos Ferreira foram bem conseguidas pela entrevistadora e, sobretudo, por Lobo Antunes. Lúcido, desassombrado e fora da caixa, esteja já lá onde estiver - ‘continuará a escrever!’ e a ser lido.

Vítor Colaço Santos