“Por vezes creio que vivemos num ‘gheto’ cultural”, disse António Lobo Antunes ao DIÁRIO
Dono de personalidade forte, cuja fraqueza nem sempre foi interpretada pelo prisma positivo, António Lobo Antunes falou ao DIÁRIO
Em 11 de Setembro de 1983, António Lobo Antunes, numa entrevista ao DIÁRIO, sobre o ambiente literário em Portugal, e já contra o egoísmo e o hermetismo do meio, dizia: “Por vezes creio que vivemos num ‘gheto’ cultural virados para os pequenos ídolos caseiros que escrevem o que não se lê”.
Na ocasião, questionado sobre o sucesso dos seus livros, que rapidamente atingiram um número de edições pouco frequente, mostrou-se surpreendido. “As coisas têm êxito em resultado da atenção dispensada por aqueles que estavam à espera que lhes aparecesse algo de diferente do habitual”.
Falou sobre a experiência profissional e humana vivida no Hospital Miguel Bombarda e a vivência em África. António Lobo Antunes relevou, nas nossas páginas, o peso de uma personalidade forte, cuja fraqueza nem sempre foi interpretada pelo prisma positivo.
António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1 de setembro de 1942, licenciou-se em Medicina, pela Universidade de Lisboa em 1969, tendo-se especializado em Psiquiatria, que mais tarde exerceu no Hospital Miguel Bombarda. Optou pela escrita a tempo inteiro em 1985, para combater a depressão que dizia ser comum a todas as pessoas.
"Nunca soube verdadeiramente fazer outra coisa que não escrever", declarou o escritor à agência Lusa, em 2004, quando já tinha recebido o Prémio União Latina (2003) pelo conjunto da obra, e a lista de distinções já ia do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) ao Melhor Livro Estrangeiro publicado em França ("Manual dos Inquisidores") e ao reconhecimento pela Feira do Livro de Frankfurt (1997), na Alemanha.
O seu primeiro livro, "Memória de Elefante", surgiu em 1979, logo seguido de "Os Cus de Judas", no mesmo ano, sucedendo-se "Conhecimento do Inferno", em 1980, e "Explicação dos Pássaros", em 1981, obras marcadas pela experiência da guerra e pelo exercício da Psiquiatria, que depressa o tornaram um dos autores mais lidos em Portugal.
A República Portuguesa condecorou-o com a grã-cruz da Ordem de Sant'Iago da Espada, em 2004 e, em 2019, com a Ordem da Liberdade. França deu-lhe o grau de "Commandeur" da Ordem das Artes e das Letras, em 2008.
Foi Prémio Camões em 2007.