Líder do Hezbollah recusa rendição a "agressão israelo-americana"
O grupo xiita Hezbollah vai enfrentar a "agressão israelo-americana" e recusa render-se, declarou ontem o líder, Naim Qassem, em plena vaga de bombardeamentos no Líbano e incursões terrestres no sul do país por Israel.
"O Hezbollah e a sua resistência islâmica estão a responder à agressão israelo-americana, e este é um direito legítimo. A nossa escolha é enfrentá-la até ao sacrifício máximo e não nos renderemos", disse Naim Qassem num discurso transmitido pela televisão do grupo político e militar apoiado por Teerão.
Esta foi a primeira intervenção do clérigo xiita desde o início do ataque dos Estados Unidos e Israel, no sábado, contra o Irão e do alargamento do conflito ao Líbano.
As forças israelitas intensificaram os ataques aéreos no sul do Líbano, Vale de Bekaa e arredores de Beirute nos últimos dias, apesar do cessar-fogo acordado com o Hezbollah, em novembro de 2024, e na terça-feira expandiram as posições terrestres que já ocupavam no sul do país.
As operações terrestres foram justificadas com a intenção de estabelecer um perímetro de segurança, desde que o Hezbollah retomou os ataques aéreos contra Israel, no seguimento dos bombardeamentos das forças israelitas e norte-americanas no Irão e da morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei.
O secretário-geral do Hezbollah acusou Israel de lançar uma "guerra preparada" contra o Líbano e de tentar disfarçá-la como resposta a um ataque anterior com foguetes realizado pelo grupo contra território israelita.
"O que Israel fez não foi responder a um lançamento de foguetes, foi uma guerra preparada", acusou Naim Qassem.
As mais recentes vagas de ataques israelitas no Líbano causaram 72 mortos desde segunda-feira e mais de 83 mil deslocados, indicaram as autoridades de Beirute.
O Ministério da Saúde libanês indicou que 72 pessoas morreram e 437 ficaram feridas nos bombardeamentos de Israel, em resposta a ataques aéreos do movimento xiita Hezbollah, apoiado pelo Irão, contra o país.
A ministra dos Assuntos Sociais libanesa indicou que foram registados 83.847 deslocados nos centros de acolhimento estatais, mas o número deverá ser superior, uma vez que muitas mudaram-se para segundas residências, casas de familiares ou alojamentos alugados e não constam nos dados oficiais.
O secretário-geral do Hezbollah deixou também críticas ao Governo libanês por ceder a Israel e insistir no desarmamento das suas milícias.
"Cabe ao Governo trabalhar pela restauração da soberania do Líbano, defender o seu povo e o direito de resistir até que a agressão cesse e o inimigo se retire da nossa terra e da nossa pátria", afirmou, ao deixar uma questão: "O problema é o monopólio das armas ou antes as violações da soberania libanesa por parte de Israel?"
As autoridades de Beirute proibiram esta semana as atividades militares do Hezbollah, que deve cingir-se às suas ações políticas, ao mesmo tempo que prossegue a recolha de armas em posse do movimento.
O Presidente libanês, Joseph Aoun, disse tratar-se de uma decisão irreversível.
Em outubro de 2024, as forças israelitas executaram bombardeamentos nas mesmas regiões libanesas e eliminaram grande parte da cúpula do Hezbollah, que nos meses anteriores lançara projéteis contra o norte de Israel, em apoio do aliado palestiniano Hamas, desde o inicio da guerra na Faixa de Gaza.
Na mesma altura, as tropas israelitas ocuparam cinco posições militares no sul do Líbano, que ainda conservam e que foram agora expandidas para áreas sob jurisdição da força de paz da ONU no Líbano (FINUL).
O Hezbollah afirmou que os seus combatentes envolveram-se em confrontos diretos com soldados israelitas em Khiam, a seis quilómetros da fronteira, pela primeira vez desde o início das operações terrestres de Israel.
Em comunicado do movimento, o grupo libanês reivindicou 14 ataques contra posições israelitas.
O comandante do exército de Israel ameaçou na terça-feira que vai continuar os ataques contra o Hezbollah até que o grupo seja desarmado e deixe de constituir uma ameaça para Israel.
"Estamos determinados a eliminar a ameaça representada pelo Hezbollah e não cessaremos até que esta organização seja desarmada", avisou Eyal Zamir.
O Líbano é um dos países mais expostos à escalada militar na região desde os ataques iniciados no sábado de Israel e Estados Unidos contra o Irão, que respondeu com mísseis e drones contra bases norte-americanas e outras infraestruturas em países da região e alvos israelitas.