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Tempestades e guerras

Nunca pensei que a democracia portuguesa fosse tão indestrutível. Afinal, conseguiu eleger um presidente cuja principal virtude é a ausência de virtudes. Um prodígio de vacuidade que, pela serenidade do nada, neutralizou o renegado adversário. É como se Portugal descobrisse o poder alquímico do vazio: o silêncio derrotou o ruído e a mediocridade revelou-se, finalmente, num projeto de Estado.

Preparemos a exultação nacional por dois dias a partir do dia 9.

Entretanto, a justiça portuguesa lá vai cumprindo o seu papel com aquela solene indiferença que toma tranquilidade por confiança. Não assusta — o que é saudável —, mas também não convence — o que já é patológico. O ex-diretor nacional da Polícia Judiciária, homem prudente e de perfil técnico, que tem navegado por várias legislaturas, aceitou dirigir o ministério das polícias e da proteção civil (MAI), após a vaga deixada pela ex-ministra atropelada pelos vários vagões do comboio de tempestades que transformaram a zona centro num campo alagado, escuro, frio e esquecido. Se a tempestade trouxe destruição, a ex-ministra intensificou a angústia e a perplexidade. Pedro Calado, por sua vez, tem novo livre-passe para a vida política, após sair da oficina do restauro ético do PSD-Madeira por manifesta escassez de matéria-prima. Só lhe falta, agora, repetir a bênção das urnas e usufruir do bónus de uma indulgência vaticana, para que o meu amigo entre no panteão dos candidatos beatificáveis da cristandade.

Enquanto isso, a ilha continua a brotar metáforas — já que as algas do Porto Santo se cansaram de papar dinheiro público. Tal como a Namíbia tem a sua Skeleton Coast, também nas águas do Lazareto — onde, em 1989, encalhou o cargueiro Ilha de Zarco, cujos pulverizados destroços ainda lá jazem —, uma plataforma flutuante com alguns contentores de apoio ao espetáculo pirotécnico de final de ano sepultou-se há três meses na martirizada orla. O serviço público contratante — o mesmo que tutela o ambiente — não parece incomodado, nem sequer pela batimetria rasa que, a olho nu, denuncia o embaraço de um papel amarrotado atirado ao chão em jeito de cuspidela. Há biólogos que veem no Lazareto um “campus azul” — presumo que já esteja devidamente expurgado da ferrugem.

A autoridade marítima limita-se a dizer-se atenta. Só o mar permanece impassível, incapaz de esconder tanta frustração.

Um cão agredido com um pé-de-cabra chocou-nos. O elemento estranho na Madeira é mesmo a ferramenta; o resto da medievalidade imposta aos animais na ilha até é comum.

E, depois do Carnaval tão “autonómico” que tivemos — como aqueles cortejos de Pyongyang —, mais uma guerra abraça-nos. Desde 1979 o Irão alimenta o fogo sagrado e exporta as suas chamas aos fiéis e aos infiéis. Foram necessários quase cinquenta anos para que uma dupla ocidental, cansada de seminários sobre a legalidade internacional, optasse pelo método direto: primeiro a Venezuela, depois o Irão, e Cuba aguarda pacientemente na fila da purificação. Eu, que até cursei direito e tento ter-lhe sempre observância, como sou obrigado, começo a achar que ele se pratica melhor quando temperado com uma colher de pragmatismo funcional — sobretudo se o lume estiver demasiado alto.