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Derrota em referendo fragilizou Meloni mas é extemporâneo projectar eleições de 2027

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Analistas consideram que a rejeição da reforma judicial proposta pelo Governo italiano no referendo da semana passada fragilizou a posição da primeira-ministra Giorgia Meloni, mas admitem ser extemporâneo projetar o resultado da consulta para as eleições legislativas de 2027.

No poder desde outubro de 2022, e já com as eleições gerais do próximo ano no horizonte, Meloni, líder do partido nacionalista conservador Irmãos de Itália, sofreu a primeira grande derrota nas urnas no referendo realizado a 22 e 23 de março, ao ver rejeitada, por uma diferença de quase dois milhões de votos (o "Não" obteve 53,7%, contra pouco mais de 46% do "Sim"), a proposta do seu executivo para reformar o setor da justiça.

A consulta contou com uma afluência muito elevada às urnas (perto de 59%), que surpreendeu todos os atores e analistas políticos, tendo a mobilização sido lida por alguns -- e celebrada pela oposição - como um sinal de viragem no panorama político italiano, dominado nos últimos anos pelo estado de graça de Meloni, que já lidera um dos governos com maior longevidade da República Italiana.

"É certo que a votação do referendo assumiu uma conotação política clara, em parte porque os dois blocos que defenderam as posições opostas refletiam os dois grandes polos da política nacional", destacou, em declarações à agência Lusa, o investigador Filippo Simonelli, do Instituto de Assuntos Internacionais, um grupo de reflexão independente, privado e sem fins lucrativos.

Na sua opinião, é legítimo interpretar que, "mais do que uma rejeição da reforma proposta pelo Governo, que se tornou cada vez mais marginal na narrativa e no debate político, assistiu-se a uma mobilização de um eleitorado 'contra', que levou às urnas até mesmo quem não tinha ido votar nas últimas consultas, mas que não adere necessariamente de forma automática ao programa do Campo Largo", disse, referindo-se à coligação dos partidos de oposição, de centro-esquerda.

Por seu lado, Francesco Ceroni, presidente do grupo de reflexão Orizzonti Politici (Perspetivas Políticas), composto inteiramente por estudantes universitários e jovens profissionais, que se apresenta como o "'think tank' da Geração Z", apontou que "as análises pós-votação permitem deduzir que se trata mais de um voto politizado por parte de um eleitorado que normalmente se abstém, mas que se mobiliza em torno de grandes questões referendárias para bloquear alterações constitucionais importantes".

"Fala-se de um 'partido da Constituição', ou seja, um eleitorado bastante heterogéneo que tende a mobilizar-se fortemente para os referendos constitucionais", afirmou, sublinhando que apenas pouco mais de um terço dos eleitores do "Não" justificou a oposição ao Governo como motivo do voto (31%), um valor "bastante inferior à vontade de não alterar a Constituição (61%), que se revela o principal motivo da decisão".

"Em contrapartida, a forte afluência entre os jovens parece estar ligada ao crescimento de um movimento de protesto generalizado contra o Governo, que teve a sua primeira concretização na manifestação de Roma em apoio à Palestina, em outubro de 2025" e que prossegue, como sucedeu com o protesto "No Kings Italy" (movimento com origem nos Estados Unidos que contesta a administração liderada por Donald Trump), acrescentou.

"É ainda cedo para compreender o posicionamento político daquilo que poderá vir a ser um importante reservatório de votos para a oposição. A participação política dos jovens, em Itália, expressa-se frequentemente de formas diferentes da tradicional. De acordo com dados recentes, os jovens italianos tendem a preferir formas de participação através de associações, em vez de aderirem a um partido. O objetivo da oposição deverá ser, acima de tudo, superar a desconfiança estrutural que os jovens nutrem pelas formas tradicionais de política, para canalizar uma oposição, ainda que existente, ao governo em votos", frisou Ceroni.

Certo é que a derrota no referendo marca um ponto de viragem, concordaram os analistas, com Filippo Simonelli a considerar que "sim, isso está fora de discussão, também porque a questão da invencibilidade [de Meloni] foi posta em causa mais na narrativa do que nas urnas, como se fosse uma espécie de profecia que se auto realiza".

"Ao mesmo tempo, não creio que haja qualquer automatismo em transferir este resultado para as eleições legislativas de 2027. Pelo contrário, paradoxalmente, o Governo de Meloni terá tempo para se reorganizar precisamente na ausência de grandes eventos eleitorais até essa data, desde que abandone a atitude um pouco errática e de ajuste de contas que caracterizou estes dias pós-referendários", afirmou.

Também Ceroni afirma que "a vitória do 'Não' pode ser considerada sem dúvida um ponto de viragem para o Governo liderado por Giorgia Meloni", lembrando que, nos dias imediatamente seguintes, registaram-se demissões de vários membros do executivo, já envolvidos em inquéritos e processos judiciais de diversa natureza", acompanhadas por uma tomada de posição clara por parte da primeira-ministra de "não voltar a encobrir ninguém", que "marca uma mudança de rumo na direção do Governo e parece ter como objetivo conter os danos à imagem e à credibilidade".

"Esta mudança, no entanto, não parece suficiente para sancionar o fim da aura de invencibilidade" da primeira-ministra, concordou, considerando que, "pelo contrário, abre uma fase mais incerta, em que o resultado do referendo corre o risco de produzir efeitos tanto a nível eleitoral como na estabilidade global da ação governamental".

Contudo, além de a rejeição da reforma da justiça - que "representava, de facto, um dos pilares da agenda do executivo, também a nível simbólico" - expor o Governo à crítica de não ter concretizado reformas significativas entre as prometidas em 2022, "apesar de contar com uma das maiorias mais sólidas da história da República Italiana", o resultado, admitiu, também "enfraquece inevitavelmente a narrativa de Giorgia Meloni como intérprete da 'vontade popular', frequentemente colocada em oposição a outros poderes, em particular ao poder judicial, e torna menos eficaz a referência direta à representação da 'maioria dos italianos'".

Projetando as eleições de 2027, Filippo Simonelli concorda que "sem dúvida" o resultado do referendo dá um novo fôlego à oposição, "também porque existe a perceção de que o eleitorado do 'Não' é um eleitorado que se pode mobilizar em torno da causa do Campo Largo em nome de ideais como o antifascismo (mesmo quando se trata de um tema usado de forma inadequada), ou a defesa da Constituição, que é, na realidade, um tema de maior alcance e que provavelmente foi invocado indevidamente neste caso".

"A liderança do Campo Largo é, no entanto, um tema muito mais espinhoso, não só porque algumas figuras potencialmente de destaque já se retiraram, mas também porque a heterogeneidade das forças que o compõem terá um peso determinante na sua transformação numa proposta de governo, uma vez que deixe de existir o elemento aglutinador do adversário comum em torno do qual se reuniram por ocasião do referendo", observou o investigador do Instituto de Assuntos Internacionais.

Igualmente Francesco Ceroni observa que, "se, por um lado, o referendo demonstrou a possibilidade de reunir uma ampla frente de oposição, por outro, a sua natureza heterogénea limita a capacidade de se traduzir numa alternativa política coesa e competitiva".

"Daí resulta um cenário aberto e instável que, embora torne Giorgia Meloni mais vulnerável, não implica necessariamente o fim da sua liderança. É importante sublinhar que esta é a primeira derrota política de Giorgia Meloni desde a sua entrada na política, há já 18 anos. Será, portanto, interessante ver como ela enfrentará este cenário para ela totalmente novo", concluiu o analista.