A vida como adulta
A mim o que me animava pela Avenida da Liberdade acima, a caminho do escritório da TAP, era a certeza das férias da Páscoa e o pouco que faltava para voltar ao quarto que tinha deixado vazio uns meses antes na casa do Laranjal
Os dias luminosos, de céu azul e cada vez maiores, tornavam a cidade mais bonita e, nas montras, havia roupa de Primavera anunciar o calor, mas a mim o que me animava pela Avenida da Liberdade acima, a caminho do escritório da TAP, era a certeza das férias da Páscoa e o pouco que faltava para voltar ao quarto que tinha deixado vazio uns meses antes na casa do Laranjal. Lisboa mostrou-se diferente do que eu imaginara: era difícil viver num sótão na Amadora e não me tinha habituado ainda ao comboio e ao metro, aos empurrões, às escadas rolantes e àquela pressa das pessoas.
Talvez fosse mais simples se não fosse aquele frio que me importunava e não me deixava tirar o casaco. À porta do anfiteatro na faculdade havia uma roda viva de rapazes e raparigas, falava-se das frequências e dos trabalhos para entregar e uma parte estava já arrumar as malas para voltar a casa no comboio ou no expresso. Eu ia de avião e isso fazia de nós, os das ilhas, uma espécie mais exótica cuja arte passava por sobreviver às piadas e às imitações sem graça do sotaque. Só depois de navegar essa primeira tormenta as águas ficaram mais claras e comecei a perceber que, por ali, havia pessoas de quem podia ser amiga.
Eu tinha falado com quase todos, partilhado a mesa no bar da faculdade e na cantina e sabia quem era de Torres Vedras, do Algarve, da Lixa, de Aveiro, de Sintra, de Coimbra ou de Lisboa, além dos outros três que, como eu, trocavam os ‘l’ por ‘lh’ e suspiravam pelo sol e pelo calor da Madeira. Uns viviam em quartos alugados, outros dividiam apartamentos com amigos ou estavam de favor em casa de família. A maioria morava em casa dos pais e não sabia o desassossego que tomava conta da vida dos deslocados para quem, todos os dias, significava superar o risco de ficar sem roupa lavada ou sem dinheiro para comer.
À mesa da cantina ou no bar antes das aulas descobri que livros andavam a ler e que filmes viam, como passavam os fins-de-semana, se iam sair com os amigos ou alugavam um filme no videoclube do bairro onde viviam. Talvez por lhes parecer diferente e de ser de um lugar tão distante que obrigava a apanhar um avião, comecei a ser visita de casa, a ficar para almoçar ou jantar, a receber convites para ir às terras de onde vinham. A Lina Marta tímida abriu a porta à Marta e foi essa Marta que apanhou o avião para passar as férias da Páscoa em casa, no quarto que tinha ficado vazio uns meses antes, quando a minha mãe e eu descemos os degraus da entrada para irmos para o aeroporto.
O quarto estava, de facto, mais vazio, as torneiras da casa de banho pareciam-me mais pequenas e tinha morrido um dos nossos cães. O meu irmão era jornalista estagiário e a minha prima Ana estava a tirar carta de condução, mas o nosso jardim estava carregado de flores e havia um cheiro a flor de laranjeira no quintal que me fez sentir em casa. As minhas tias e a minha mãe acharam-me mais magra e mais pálida, também lhes parecia outra e era verdade. Eu tinha saído dali a adolescente que nunca dormira uma noite fora de casa; Lisboa devolveu-lhes, em três meses, uma Marta independente. A minha vida como adulta estava a começar.