Guterres pede erradicação do racismo sistémico e justiça reparatória face à escravidão
O secretário-geral da ONU, António Guterres, assinalou hoje o Dia Internacional da Lembrança das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos com um apelo à erradicação do racismo sistémico e à justiça reparatória.
Num evento especial na Assembleia-Geral da ONU, Guterres lembrou a "profunda traição à dignidade humana" que foi o "rapto de milhões de africanos, arrancados às suas famílias e comunidades que nunca mais voltariam a ver", para tráfico transatlântico em condições tão cruéis que um em cada sete não sobreviveu à viagem.
A escravização dessas pessoas nas Américas, onde gerações foram brutalmente exploradas pelo seu trabalho e privadas da sua humanidade básica, eram o cerne de uma ordem económica e social global e refletiam um sistema nascido da ganância, construído sobre mentiras e imposto pela violência, segundo frisou o líder da ONU.
"Um sistema que prevaleceu durante mais de 400 anos e que assombra o nosso mundo até aos dias de hoje. Um sistema que refletia o pior da humanidade", lamentou.
O antigo primeiro-ministro português recordou que esse "sistema malévolo" foi sustentado por leis que privaram os escravizados da alfabetização, da autonomia e da humanidade.
E foram sustentadas por "redes económicas, financeiras e comerciais que permitiram às elites e aos impérios --- incluindo o meu próprio país --- acumular riqueza construída sobre vidas e trabalho roubados", declarou.
Para "justificar o injustificável", disse Guterres, os defensores e beneficiários da escravatura construíram uma ideologia racista, "transformando o preconceito em pseudociência".
Nesse sentido, o secretário-geral da ONU defendeu a rejeição da falsa narrativa da diferença racial e a denúncia "da mentira repugnante da supremacia branca" que é disseminada "'online', nos media, nas escolas, no trabalho, na política e dentro de nós próprios".
O líder das Nações Unidas apelou à remoção das barreiras persistentes que impedem muitos afrodescendentes de exercerem os seus direitos e de realizarem o seu potencial.
Pediu também ações em três áreas críticas: erradicar o racismo sistémico; garantir a justiça reparatória, e acelerar o desenvolvimento inclusivo, com igualdade de acesso à educação, à saúde, ao emprego, à habitação e a um ambiente seguro.
Na cerimónia, António Guterres saudou as medidas que alguns países estão a tomar para se desculparem pelo seu papel na escravatura e para se juntarem ao diálogo sobre as suas consequências duradouras.
Contudo, instou a ações muito mais ousadas por parte de muitos mais Estados, incluindo compromissos para respeitar a propriedade dos países africanos sobre os seus próprios recursos naturais e medidas para garantir a igualdade de participação e influência na arquitetura financeira global e no Conselho de Segurança da ONU.
"Honremos as vítimas do comércio transatlântico não apenas com as nossas palavras, mas com o nosso trabalho. Construamos um futuro onde todos os seres humanos vivam e prosperem com dignidade", concluiu.
O Gana vai apresentar hoje, à Assembleia-Geral da ONU, uma resolução para designar o tráfico de escravos africanos como "o crime mais grave contra a humanidade"
A proposta, que irá hoje a votos, insta os Estados-membros da ONU a considerarem pedir desculpa pelo tráfico de escravos e a contribuírem para um fundo de reparações.
A resolução deverá enfrentar resistência, dado que países como o Reino Unido há muito que rejeitam o pagamento de reparações.