O medo de perder
Nunca consegui dormir com o telemóvel desligado durante a noite. Mesmo com o conselho de alguns amigos que me diziam que não seria avisado tê-lo ao lado da cama, muito menos a carregar pelos efeitos nocivos para a saúde que podem daí advir. E porquê? Porque tinha (e continuo a ter) sempre a sensação de que os meus Pais podiam precisar de mim e eu não estar lá, naquele preciso momento para os acudir, ajudar ou apoiar. Não sei se pela ligação tão especial que tenho com eles, se pelo peso que carrego de uma dívida inestimável por tudo o que têm feito por mim ao longo da vida. Não me recordo de uma única vez que me tenham falhado, que não estivessem lá para mim, que não me dessem a mão quando precisava de ajuda, que me puxassem para cima quando fui abaixo. É uma dicotomia difícil de explicar de uma felicidade que me acompanha por me ter calhado uma família tão boa e que me dá ao mesmo tempo tanto receio do dia em que não possa ser assim. Há vezes em que sofremos por antecipação, sentimento difícil de controlar perante diversas situações ou temas que nos dizem tanto. Acho que é um bocadinho como o amor, quem está mais disponível para amar e para se entregar, está sempre mais perto de ser feliz mas também de sofrer algum desgosto.
Acredito que quem tenha filhos o possa experienciar de uma forma ainda mais brutal. Não somos todos iguais não, há quem seja mais desapegado, quem não pense nessas coisas ou simplesmente não tenha essas preocupações. Também há quem não tenha a sorte de ter este tipo de ligações especiais. Mas percebo perfeitamente quando vejo amigos com o “credo na boca” ao saberem que os filhos vão viajar ou vão estar expostos a situações eventualmente mais perigosas. O único sítio onde desligo o telemóvel de noite é precisamente quando durmo em casa dos meus Pais e sei que a chamada telefónica se substitui por uns passos ou uma voz mais alta que sobe pelas escadas até ao meu quarto. A beleza da vida traz-nos estas situações que nos colocam o medo de perder a correr em paralelo com a fortuna de gostar. Se preferia que fosse diferente? Se gostava de não ter gente à minha volta de quem gosto tanto só para subtrair de mim esse vislumbre de dor? Claro que não. A magia do que vivemos ultrapassa em larga medida o sofrimento e é por isso que eu defendo sempre que devemos ir dizendo com a regularidade possível, que gostamos de quem gostamos, que valorizamos os que nos valorizam e que o valor de um momento perfeito é inestimável e como tal devemos ser eternos colecionadores desses momentos que nos ficam para sempre, uns em forma de saudade outros em forma vontade de criar novos e diferentes.
Não quero que este texto seja entendido de uma forma densa e pesada mas sim como uma reflexão sobre o que esperamos dos outros e o que temos que aproveitar enquanto podemos, juntos, felizes e inteiros. Por vezes uma palavra, uma visita, um agradecimento e um sorriso fazem a diferença toda, sobretudo para os que não esperam nada em troca e estão lá só porque sim. Mesmo quando o trabalho nos esgota e não parece libertar tempo para nos dedicarmos às relações, mesmo quando nos sentimos mais distantes, mesmo até quando ficamos tristes e nos fechamos ou nos sentimos injustiçados. Há sempre um amanhã que não espera, um presente que não se vive duas vezes, um arrependimento por termos ficado ali, presos ao nosso orgulho, por questões insignificantes quando comparadas com o que perdemos. É por isso que defendo sempre a comunicação como arma para resolver problemas ou possíveis mal entendidos mas defendo também a nossa capacidade de superação para sabermos ultrapassar algumas mágoas, a capacidade de perdoar quando está em vista um bem maior e o não deixar para dizer amanhã o que pode ser dito hoje. Se esse medo de perder nos acompanha que a vontade de nos preenchermos e de valorizarmos os que são importantes seja sempre mais forte. Porque a magia da vida está nas relações que nos aquecem e não nos deixam sentirmo-nos sozinhos, umas que nasceram connosco, outras que apareceram como uma brisa suave de Verão e prometem ficar para sempre. O resto é o destino…
Frases soltas:
A China registou uma queda populacional deste 2022, o que significa que morre mais gente do que nasce. Talvez aprendendo com os erros da Europa quer promover uma “sociedade amiga da natalidade” para enfrentar aquilo a que já se pode chamar uma crise demográfica. Num tempo em que é tão difícil conseguir acesso à habitação, educação e saúde a preços razoáveis é preciso visão estratégica e medidas concretas para incentivar à criação de filhos.
A trans espanhola Mar Vásquez, recusou-se a competir na categoria feminina de Atletismo por considerar “injusto e antiético” correr contra mulheres biológicas. Resultado? Subiu ao pódio na categoria masculina. Um aplauso para ela.
Um ex-adjunto do antigo Ministro do Ambiente, foi detido por fugir à polícia e dar uma cabeçada num agente. A desculpa foi que o comportamento dos agentes transformou-se ao se aperceberem da sua homossexualidade. Quando o desespero ataca…