Quando as estações tinham relógio certo
Há coisas que ficam gravadas na memória de quem cresceu noutros tempos. Uma delas é a forma como as estações do ano pareciam ter ordem e disciplina. Quem andou na escola primária há algumas décadas lembra-se bem: chegavam as férias grandes e vinha o verão. Era sol quase garantido, calor, dias compridos e praia. Três meses certos. Não falhava.
Depois, como se o mundo obedecesse a um calendário invisível, acabavam as férias e começava a mudança. Chegava o outono com os primeiros ventos, as folhas a cair e as chuvas a regressar. Mais tarde vinha o inverno, frio e húmido, como sempre foi. E a seguir aparecia a primavera, com o ar mais leve, os campos verdes e as árvores em flor. As estações tinham personalidade própria e sabiam quando entrar em cena.
Hoje muita gente olha à volta e sente que essa ordem se perdeu.
Há anos em que o calor se arrasta até outubro ou novembro. Outras vezes chove em pleno verão. Há invernos que parecem curtos e tímidos e primaveras que quase passam despercebidas. Tudo parece mais irregular, mais baralhado, como se o velho relógio das estações tivesse deixado de marcar as horas certas.
Parte desta sensação pode nascer da memória. Quando somos crianças, os dias bons ficam mais vivos na lembrança. O verão da infância parece sempre mais longo, mais luminoso e mais perfeito do que realmente foi.
Mas também é verdade que o clima mudou. Os registos mostram verões mais quentes, períodos de seca mais prolongados e episódios de chuva intensa concentrados em poucos dias. A natureza continua a fazer o seu caminho, mas o ritmo já não é o mesmo.
Talvez o mais curioso seja perceber como a memória das pessoas guarda uma espécie de calendário antigo. Um calendário em que as estações sabiam o seu lugar e em que o verão, para quem estava na escola, coincidia sempre com liberdade, sol e dias de praia.
E, no fundo, quando alguém diz que “antigamente o tempo era mais certo”, muitas vezes não está apenas a falar de meteorologia. Está também a falar de um tempo em que a vida parecia mais simples e em que até as estações do ano pareciam respeitar as regras.
António Rosa Santos