A Madeira é das regiões com maior sucesso no Festival da Canção?
A participação de nenhum representante da Madeira na edição 2026 do Festival da Canção da RTP, que escolherá o representante de Portugal no Festival Eurovisão, leva a questionar afinal qual a qualidade dos artistas madeirenses que os leva a serem uma das mais bem sucedidas do evento de talento musical. Desta feita, não ajudou a que fosse escolhido um único concorrente ilhéu.
Na verdade, tirando Lisboa, Norte e Algarve, a Madeira é a região com maior número de vencedores do Festival da Canção. Mas, por distrito ou região autónoma a taxa de sucesso é ainda maior. Mas sabe quem são? E qual é o número de vezes que cada região portuguesa já foi vencedora, tendo em conta a origem dos seus principais intérpretes? Recorde-se que alguns grupos musicais vencedores têm artistas de várias origens, mas é sempre interessante saber qual é a 'tradição' neste evento que, este ano, infelizmente não conta com nenhum madeirense, embora os vencedores do ano passado tenham tido o privilégio de escolher um representante seu. Mas já lá vamos.
Há coincidências estatísticas que alimentam narrativas regionais. No caso da Madeira, a história recente do Festival RTP da Canção parece oferecer um desses enredos improváveis: sempre que um artista natural da Região Autónoma venceu o concurso, fê-lo à primeira tentativa. Mas não é verdade. No registo consolidado de participações madeirenses que terminaram no primeiro lugar, apenas temos um caso, Sérgio Borges mas numa época em que os participantes repetiam presença no evento.
Sérgio Borges, nascido, criado e estudante no Funchal, venceu o Festival RTP da Canção de 1970, mas antes tinha participado. Em 1964 fundou o Conjunto Académico João Paulo, um dos grupos que mais se destacaram em Portugal na década de 1960 e de origens madeirenses. Mas na edição de 1966, Sérgio Borges participou pela primeira vez e ficou em 2.º lugar com "Eu Nunca Direi Adeus", vencendo na sua segunda participação, com "Onde vais rio que eu canto" na 7.ª edição, repetindo presença 16 anos depois, em 1986 com a canção "Quebrar a Distância", mas sem conseguir repetir o sucesso.
Foram precisos 38 anos para a Madeira voltar a ter sucesso no Festival da Canção. Em 2008, Vânia Fernandes, natural do Funchal, conquistou o primeiro lugar com "Senhora do Mar". A intérprete já era conhecida do público televisivo, mas foi no palco do concurso nacional que consolidou projecção internacional. Em Belgrado, na Eurovisão, levou Portugal à final, feito que não era então frequente no país e colocou a Madeira pela primeira vez nesse palco europeu.
Doze anos depois, em plena edição marcada pelas restrições pandémicas, surge Elisa Silva. Natural da Ponta do Sol, venceu em 2020 com "Medo de Sentir". A vitória confirmou a presença madeirense numa nova geração de intérpretes formados fora dos grandes centros continentais. Apesar de a Eurovisão desse ano ter sido cancelada, o triunfo no Festival ficou registado como o segundo de uma artista natural da Região e, também, o segundo madeirense que não pôde mostrar o seu talento na Eurovisão (Sérgio Borges não pôde participar porque a RTP boicotou a edição de 1970).
O quarto caso é, pela primeira vez, colectivo. A banda NAPA, formada pelos músicos oriundos da Madeira, venceram a edição do ano passado. 2025 fica marcado pela origem insular do grupo como elemento identitário e simbólico, com a canção "Deslocado". A vitória consolidou uma curiosidade estatística, a Madeira é das regiões de maior sucesso no Festival da Canção.
O concurso realiza-se desde 1964 e este ano decorre pela 60.ª edição, envolve dezenas de intérpretes ao longo de mais destas seis décadas. Nem sempre os registos biográficos antigos são detalhados quanto à naturalidade dos participantes, sobretudo nas primeiras décadas. Até ao momento, porém, não surgem evidências amplamente documentadas de intérpretes nascidos na Madeira além dos referidos vencedores e de outros que ficaram pelo caminho.
São os casos de Max (Maximiano de Sousa), reconhecidamente o maior nome da música madeirense e que participou logo no primeiro Festival da Canção em 1964, e com duas canções: "O Magala" e "Minha Noite de Núpcias"; Luís Filipe Aguiar, outro dos nomes mais importantes da cultura da região, participou em 1979 com o tema "A Tua Imagem", ficando em 9.º lugar na semifinal. E ainda os casos mais recentes de João Borsch e MELA, ambos na edição de 2024.
Importa ainda distinguir critérios: naturalidade não é sinónimo de residência, formação ou ligação familiar. Poderão existir artistas com percurso relevante na região que não nasceram na ilha — e que, por isso, não entram nesta contagem específica.
Assim, à luz dos dados biográficos confirmados, a Madeira apresenta um caso singular no panorama do Festival: quatro vencedores nascidos na região - Sérgio Borges (1970), Vânia Fernandes (2008), Elisa Silva (2020) e NAPA (2025).
Veja os vencedores de cada edição e a sua origem:
- 2025: NAPA – Ilha da Madeira (Banda do Funchal).
- 2024: iolanda – Figueira da Foz (criada em Pombal).
- 2023: Mimicat – Coimbra.
- 2022: Maro – Lisboa.
- 2021: The Black Mamba – Sintra (vocalista Tatanka).
- 2020: Elisa – Ponta do Sol, Madeira.
- 2019: Conan Osíris – Lisboa.
- 2018: Cláudia Pascoal – Gondomar (Porto).
- 2017: Salvador Sobral – Lisboa.
- 2015: Leonor Andrade – Palmela (Setúbal).
- 2014: Suzy – Figueira da Foz.
- 2012: Filipa Sousa – Albufeira (Algarve).
- 2011: Homens da Luta – Lisboa.
- 2010: Filipa Azevedo – Gondomar (Porto).
- 2009: Flor-de-Lis – Lisboa.
- 2008: Vânia Fernandes – Funchal, Madeira.
- 2007: Sabrina – Setúbal.
- 2006: Nonstop – Lisboa / Albufeira.
- 2005: 2B – Santarém (Rui Drummond) e Porto (Luciana Abreu).
- 2004: Sofia Vitória – Setúbal.
- 2003: Rita Guerra – Lisboa.
- 2001: MTM – Porto (Marco Quelhas e Tony Lemos).
- 2000: Liana – Coimbra.
- 1999: Rui Bandeira – Moçambique (Nampula).
- 1998: Alma Lusa – Lisboa.
- 1997: Célia Lawson – Angola (Luanda).
- 1996: Lúcia Moniz – Lisboa.
- 1995: Tó Cruz – Lisboa.
- 1994: Sara Tavares – Lisboa.
- 1993: Anabela – Almada.
- 1992: Dina – Oliveira do Bairro.
- 1991: Dulce Pontes – Montijo.
- 1990: Nucha – Águeda.
- 1989: Da Vinci – Lisboa.
- 1988: Dora – Lisboa.
- 1987: Duo Nevada – Lisboa.
- 1986: Dora – Lisboa.
- 1985: Adelaide Ferreira – Minde (Alcanena).
- 1984: Maria Guinot – Barreiro.
- 1983: Armando Gama – Angola (Luanda).
- 1982: Doce – Lisboa.
- 1981: Carlos Paião – Coimbra.
- 1980: José Cid – Chamusca.
- 1979: Manuela Bravo – Queluz (Sintra).
- 1978: Gemini – Lisboa.
- 1977: Os Amigos – Lisboa.
- 1976: Carlos do Carmo – Lisboa.
- 1975: Duarte Mendes – Lisboa.
- 1974: Paulo de Carvalho – Lisboa.
- 1973: Fernando Tordo – Lisboa.
- 1972: Carlos Mendes – Lisboa.
- 1971: Tonicha – Beja.
- 1970: Sérgio Borges – Funchal, Madeira.
- 1969: Simone de Oliveira – Lisboa.
- 1968: Carlos Mendes – Lisboa.
- 1967: Eduardo Nascimento – Angola (Luanda).
- 1966: Madalena Iglesias – Lisboa.
- 1965: Simone de Oliveira – Lisboa.
- 1964: António Calvário – Moçambique (Maputo).
Distrito de Lisboa (23 vitórias) - Lisboa tem o maior número de vencedores no Festival. A maioria dos artistas clássicos e contemporâneos nasceu em Lisboa.
- Artistas: Simone de Oliveira (2x), Madalena Iglesias, Carlos Mendes (2x), Fernando Tordo, Paulo de Carvalho (2x), Duarte Mendes, Carlos do Carmo, Os Amigos, Gemini, Doce, Dora (2x), Duo Nevada, Da Vinci, Sara Tavares, Tó Cruz, Lúcia Moniz, Alma Lusa, Rita Guerra, Homens da Luta, Salvador Sobral, Conan Osíris, Maro.
Região Autónoma da Madeira (4 vitórias) - A Madeira é a região autónoma com mais sucessos (a única aliás).
- Artistas: Sérgio Borges (1970), Vânia Fernandes (2008), Elisa (2020), NAPA (2025).
Distrito de Coimbra (4 vitórias)
- Artistas: Carlos Paião, Liana, Mimicat, iolanda (embora nascida na Figueira da Foz, distrito de Coimbra, é frequentemente associada a Pombal, no distrito de Leiria, onde cresceu).
Distrito de Setúbal (4 vitórias)
- Artistas: Maria Guinot (Barreiro), Sofia Vitória, Sabrina, Leonor Andrade (Palmela).
Distrito de Faro (3 vitórias)
- Artistas: Manuela Bravo (Queluz/raízes algarvias), Liliana Almeida (via Nonstop), Filipa Sousa.
Distrito do Porto (3 vitórias)
- Artistas: MTM (Marco Quelhas e Tony Lemos), Filipa Azevedo, Cláudia Pascoal.
Distrito de Leiria (2 vitórias)
- Artistas: Adelaide Ferreira (Minde), Rui Drummond (via 2B - natural de Santarém, mas muitas vezes agrupado nesta zona centro).
Outros Distritos (1 vitória cada)
- Santarém: José Cid (Chamusca).
- Beja: Tonicha.
- Aveiro: Nucha (Águeda).
- Coimbra/Aveiro: Dina (Oliveira do Bairro).
Origem em antigas províncias ultramarinas (6 vitórias), com artistas nascidos fora do território continental e ilhas antes da independência dos territórios africanos.
- Angola (4): Eduardo Nascimento, Duo Ouro Negro, Armando Gama, Célia Lawson.
- Moçambique (2): António Calvário, Rui Bandeira.
Num concurso marcado por tendências, favoritismos e surpresas, a estatística insular mantém-se, para já, muito acima da média, ou seja em segundo lugar a par de Coimbra e Setúbal, apenas atrás de Lisboa. Resta saber se o futuro confirmará o padrão - ou se revelará capítulos esquecidos da história do Festival que alterem esta narrativa.
O certo é que a edição deste ano que terá hoje a segunda meia-final tem 'dedo' madeirense, com a banda Nunca Mates o Mandarim e a música "Fumo", já apurada para a final de dia 7 de Março.