Jornalistas marcham no centro de Moçambique contra atentado que tentou "silenciar a verdade"
Dezenas de jornalistas marcharam hoje na cidade de Chimoio, província de Manica, centro de Moçambique, contra o atentado a um profissional do canal privado STV, que classificam de tentativa de "silenciar a verdade", pedindo o esclarecimento do caso.
Com cânticos, empunhando dísticos e cartazes com mensagens como "o povo tem direito à informação", "queremos justiça", "não se cala a verdade com tiros", "não matem jornalistas", dezenas de jornalistas marcharam na capital de Manica, exigindo proteção aos profissionais e esclarecimento do atentado.
Em causa está o atentado sofrido na quarta-feira no Chimoio, centro de Moçambique, por Carlitos Cadangue, correspondente local do canal STV e que tem divulgado nos últimos meses várias reportagens sobre mineração ilegal na região.
O jornalista relatou que, quando conduzia a caminho de casa, dois indivíduos - que descreveu estarem vestidos com uniformes da polícia - intercetaram-no numa viatura e a seguir dispararam contra a parte traseira do automóvel.
"Marchamos porque a tentativa de assassinato do jornalista Carlitos Cadangue e seu filho não é um facto isolado nem um simples caso policial, é um ataque ao direito à liberdade de imprensa, a democracia e ao direito do cidadão à informação e à vida. Atentar contra a vida de um jornalista é tentar silenciar a verdade, é disparar contra a consciência pública, é semear o medo para que a imprensa recue, se cale e se submeta", disse à comunicação social Victor Machirica, do Sindicato Nacional de Jornalistas (SNJ) naquela província.
Os profissionais repudiaram o atentado, exigindo das autoridades moçambicanas uma investigação "célere, séria e transparente".
Na marcha, os jornalistas exigiram também a identificação e responsabilização dos autores morais e materiais deste atentado, garantias concretas de proteção a jornalistas, sobretudo aos que exercem a profissão em contexto de riscos.
"Aos que pensam que podem calar a imprensa com balas, dizemos aqui claramente que falharão. Cada ataque contra um jornalista torna-nos mais fortes, mais unidos, mais vigilantes e mais determinados", disse Machirica, prometendo mais esforços por uma imprensa "livre e responsável".
Hoje, o Comité para a Proteção de Jornalistas (CPJ), organização internacional com sede em Nova Iorque, alertou que Moçambique é um país cada vez "mais inseguro" para jornalistas, após o atentado contra Cadangue.
A Amnistia Internacional (AI) classificou na sexta-feira como "extremamente preocupante" o atentado contra o jornalista, pedindo às autoridades moçambicanas uma investigação independente, imparcial e imediata para esclarecer o caso.
Na quinta-feira, o Provedor de Justiça moçambicano considerou que o atentado contra aquele jornalista é um "ato grave" e um ataque à liberdade de imprensa e ao direito à informação, pedindo identificação e responsabilização dos autores.
O Presidente moçambicano exigiu no mesmo dia o esclarecimento do atentado contra o jornalista, apontando o medo e a insegurança como inimigos da liberdade.
Ainda na quinta-feira, o porta-voz da Polícia da República de Moçambique (PRM) em Manica, Mouzinho Manasse, afirmou que as autoridades já avançaram com os procedimentos legais, tendo o caso sido encaminhado para o Serviço Nacional de Investigação Criminal (Sernic).
O Sindicato Nacional dos Jornalistas moçambicano também exigiu uma investigação célere, independente e transparente ao atentado contra o profissional, ameaçando, entretanto, não cobrir alguns eventos oficiais caso não haja resposta clara.
O Conselho Superior da Comunicação Social (CSCS) de Moçambique também repudiou o atentado contra o jornalista, classificando-o de inadmissível e intolerável numa sociedade democrática.
O canal privado moçambicano STV considerou tratar-se de uma tentativa de intimidar a comunicação social, exigindo a realização de uma investigação célere.