Cheias só são graves por construção em zonas de risco, adverte especialista
O especialista em ordenamento do território João Joanaz de Melo considera que as cheias em zonas agrícolas não são prejudiciais mas alerta para o problema da construção em zonas de risco, e diz que mais barragens são desnecessárias.
Joanaz de Melo, ouvido pela Lusa sobre as descargas de barragens e chuva intensa e as consequentes cheias e inundações, alude à inevitabilidade de descargas de barragens mas acrescenta que tem de haver mecanismos de proteção adaptados a essa situação.
Mas, diz o professor da Universidade Nova de Lisboa, a solução para problemas idênticos no futuro não será nunca a construção de mais barragens.
"Não vale de nada, as barragens só retêm as pequenas cheias (...). Construir mais barragens cria a falsa sensação de segurança e sempre que há um episódio extremo a barragem serve para muito pouco. A única forma de lidar com isto de forma estrutural é termos uma estratégia para lidar com as zonas de risco", afirma.
Nas declarações à Lusa Joanaz de Melo insiste na questão da construção em zonas de risco, fala do último relatório do Estado do Ordenamento do Território: quase 27 mil edifícios construídos em áreas de risco de cheia, "onde provavelmente moram centenas de milhares de pessoas".
O documento em questão, com dados de 2021, indica que existiam 26.540 edifícios clássicos localizados em área suscetíveis a inundação. Os municípios que na altura eram mais vulneráveis eram os da Golegã, Vila Real de Santo António e Murtosa.
Por isso o especialista desvaloriza as inundações nas zonas agrícolas, porque os espaços rurais são resilientes a essas situações e a água vai drenar naturalmente, mas acrescenta que "o verdadeiro perigo" é haver ocupações urbanas em áreas de risco. "Isso é que é o verdadeiro perigo, não as descargas das barragens".
Joanaz de Melo admite que pode haver danos nas colheitas, mas também diz que os solos mais férteis, os solos adjacentes aos rios (leito de cheia), são criados pelas inundações, pela deposição de materiais transportados pelas cheias.
"Isto é um processo completamente natural. O que não é natural é termos ocupações urbanas nessas zonas de risco de cheia e isso infelizmente tem sido frequente no nosso país, em muitos sítios", diz o professor e investigador do CENSE (Center for Environmental and Sustainability Research).
O que por norma acontece, lamenta, é que quando regressa o sol esquece-se que há zonas que são de risco de cheia. "Há no nosso planeamento e genericamente na nossa cultura pouca cultura de gestão de risco", diz, apontando que a Reserva Ecológica Nacional (REN) destina-se principalmente para proteção de pessoas e bens, com critérios como leito de cheia, galgamento do mar ou deslizamento de terras, que são desrespeitados.
As zonas de perigo são conhecidas, os Planos Diretores Municipais têm essas zonas cartografadas, enfatiza, reafirmando também que "as cheias são um fenómeno natural" e que quando elas acontecem os rios saem do leito normal e ajudam a fertilizar os terrenos, nos quais não devia haver casas.
"Que não se diga que estas coisas são uma enorme surpresa, a violência da tempestade Kristin foi uma surpresa, porque já há muitas décadas que não tínhamos em Portugal um fenómeno com esta violência", mas sabemos que "com as alterações climáticas, aquilo que nos diz a ciência (...) é que estes fenómenos estão a ficar cada vez mais frequentes e cada vez mais violentos", alerta.
E este, diz, acaba por ser o verdadeiro significado das alterações climáticas, "não que a temperatura subiu 1,5ºC, que não diz nada à maior parte das pessoas. Mas já diz quando a água lhes chegava à porta de casa de 50 em 50 anos e agora chega de cinco em cinco.