Pobreza reflecte desigualdades e assimetrias pluridimensionais
A situação de pobreza incorpora várias desigualdades e assimetrias, face designadamente a mercado de trabalho, território, agregados familiares, e escolaridade, sexo e especificidades físico-culturais, aponta um estudo do Observatório das Desigualdades, a que a Lusa teve acesso.
Da autoria de Inês Tavares e Renato do Carmo, a investigação analisou a relação entre pobreza e aquelas variáveis sociais, com a população considerada dividida em quintis (dos 20% mais pobres aos 20% mais ricos).
Como apontam, a leitura comparativa que fizeram apurou que determinados grupos sociais se encontram sistematicamente concentrados nos rendimentos mais baixos, enquanto outros apresentam maior presença nos rendimentos mais elevados.
Assim, no mercado de trabalho, o desemprego e o trabalho a tempo parcial associam-se fortemente a rendimentos baixos, ao invés do emprego a tempo completo e dos contratos sem termo, que se concentram nos níveis de rendimento mais elevados.
Como quantificaram, 39% dos indivíduos com contratos a prazo inserem-se entre os 20% mais pobres e nos desempregados quase metade estão entre os 20% mais pobres.
No território, as áreas rurais apresentam maior peso dos rendimentos mais baixos, enquanto as urbanas demonstram maior presença nos quintis superiores.
Uma visão mais detalhada, por NUTSII (Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos - nível regional), deteta uma concentração nos primeiro e segundo quintis nas regiões autónomas e, ao contrário, uma sobre representação no 5.º quintil na Área Metropolitana de Lisboa.
Já em termos de família, os agregados monoparentais e os numerosos apresentam maior probabilidade de integrar os quintis com rendimentos mais baixos.
Por seu lado, as desigualdades escolares revelam-se particularmente determinantes, uma vez que os indivíduos com escolaridade até ao ensino básico tendem a apresentar maior peso dos rendimentos mais baixos, enquanto quase metade dos indivíduos com ensino superior se encontra nos 20% mais ricos.
Por características físico-culturais, os indivíduos que se identificam enquanto ciganos, negros e, em menor grau, asiáticos, estão sobre-representados nos quintis mais baixos, revelando assimetrias estruturais profundas e persistentes. Em contrapartida, quem se identifica enquanto branco apresenta uma distribuição mais equilibrada e com maior peso dos rendimentos mais elevados.
A base de dados que baseou o trabalho de Inês Tavares e Renato do Carmo, designada 'Inquérito às Condições de Vida, Origens e Trajetórias da População Residente', resultou de um protocolo entre o Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa e o Instituto Nacional de Estatística.
A dimensão da amostra atingiu 35.035 unidades de alojamento, sendo a população alvo indivíduos dos 18 aos 74 anos residentes em Portugal. A seleção do respondente foi um indivíduo por alojamento (o último a celebrar o aniversário) e a recolha de dados foi feita entre janeiro e agosto de 2023, explicaram os autores do documento.