A Madeira também já registou alegados casos de discriminação racial no desporto?
A polémica em torno do alegado caso de racismo no jogo entre o S.L. Benfica e o Real Madrid, na Liga dos Campeões, está longe de terminar e voltou a colocar o tema da discriminação racial no centro do debate desportivo, mas também social.
O episódio envolveu o internacional brasileiro Vinícius Júnior (Real Madrid) e motivou a abertura de um processo disciplinar por parte da UEFA ao jogador Gianluca Prestianni (Benfica).
Nos últimos anos, as competições organizadas pela UEFA e pela FIFA passaram a prever protocolos específicos para situações de racismo, permitindo interromper jogos, emitir avisos sonoros nos estádios e, em casos graves, suspender ou abandonar partidas.
Em Portugal, o enquadramento legal atribui à Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD) competência para investigar e sancionar comportamentos discriminatórios em contexto desportivo. A entidade pode instaurar processos de contraordenação, aplicar coimas e determinar interdições de acesso a recintos desportivos.
Sobre este assunto, num comentário a uma das notícias sobre o alegado racismo, um dos nossos leitores dizia: “Até parece que na Madeira também não existem casos de racismo no desporto. Não é preciso ir assistir aos jogos dos grandes...”
Coloca-se assim a questão: Será que a Madeira também regista casos de discriminação racial no desporto?
Este artigo não pretende uma análise exaustiva sobre a matéria – longe disso –, mesmo porque nos cingimos a casos reportados, recentes, com mais alcance nos órgãos de comunicação social regionais, e que levaram a intervenções da Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD).
A 9 de Outubro de 2023, a APCVD instaurou um processo de contraordenação para apurar alegados insultos racistas dirigidos a um jogador de 15 anos do CS Marítimo, durante o jogo entre Câmara de Lobos e Marítimo B, a contar para o Campeonato da Madeira de juvenis. O clube verde-rubro veio depois repudiar os comportamentos e exigiu consequências exemplares.
Marítimo denuncia e repudia racismo em jogo dos juvenis
André Silva, de 15 anos, terá sido vítima de comportamentos racistas por parte de um elemento do Câmara de Lobos
Em Fevereiro de 2025, o Estoril Praia denunciou um alegado episódio de racismo no encontro frente ao CD Nacional, disputado na Madeira para a I Liga. Em comunicado, o clube visitante apelou à responsabilidade de todos os intervenientes e defendeu que qualquer acto de discriminação racial deve ser afastado do futebol.
Estoril Praia denuncia alegado caso de racismo no jogo com o Nacional
O Estoril Praia denunciou hoje um alegado caso de racismo no jogo de sábado frente ao Nacional, da 22.ª jornada da I Liga de futebol, na Madeira, pedindo "responsabilidade de todos os intervenientes", "respeito" e "dignidade humana".
A decisão, divulgada depois a 28 de Março de 2025, veio absolver o Nacional de qualquer prática de racismo. “No futebol, como na vida, uma mentira repetida não se torna verdade. Em comunicado publicado neste site oficial, sobre o CD Nacional – Estoril Praia da 22.ª jornada da Liga Portugal Betclic, esta instituição centenária defendeu a sua reputação e o seu bom-nome perante falsas acusações levadas a cabo por três agentes desportivos do clube visitante, nomeadamente o treinador estorilista Ian Cathro, o camisola n.º 20, Wagner Pina, e o delegado Vasco Varão”, lia-se no comunicado dos alvinegros.
Já a 12 de Novembro de 2025, a APCVD anunciou a instauração de processo após alegados insultos racistas dirigidos à jogadora Joana Ramos, do GDR André Resende, num jogo frente ao CDE Francisco Franco, no Funchal, em competição organizada pela Federação Portuguesa de Basquetebol. O clube madeirense lamentou o sucedido e declarou repudiar qualquer forma de discriminação.
CDE Francisco Franco alvo de processo por insultos racistas
A Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD) instaurou um processo de contra-ordenação para apurar alegados insultos de teor racista dirigidos à jogadora do GDR André Resende, Joana Ramos, de 33 anos.
Os três casos acima descritos – formação, futebol profissional e basquetebol feminino – deram origem a procedimentos formais de averiguação e somam-se a um quadro nacional em que a autoridade competente tem vindo a reforçar a fiscalização e a aplicação de sanções. Mas nem todos os casos analisados correspondem no final à prática comprovada de actos de racismo. Cada caso é um caso.
A saber, a Autoridade de Prevenção e Combate à Violência no Desporto (APCVD) registou 181 processos relacionados com racismo desde 2019, quando iniciou a actividade, tendo como base o comportamento incorreto dos adeptos em recinto desportivo. A maioria destes feita a partir dos autos de notícia das forças de segurança (PSP e GNR).
No Relatório de Análise da Violência associada ao Desporto (RAViD época 2024/2025) é possível verificar que 9 adeptos com residência na Região foram alvo de medidas de interdição de acesso a recintos desportivos, na sequência de comportamentos ilícitos registados sobretudo no futebol.
Confusão em jogo de futebol júnior sem policiamento
Um jogo de futebol de formação regional, no escalão de Juniores, acabou por resultar em invasão de campo, pancadaria, muita confusão e, inclusive, a ameaça de um indivíduo de que iria usar um machado.
No geral, na referida época desportiva, o Ponto Nacional de Informações sobre Desporto (PNID) registou um total de 7.140 incidentes em espectáculos desportivos, tendo simultaneamente contabilizado 127 situações de incumprimento de deveres imputados ao promotor.
Lembrar aqui um dos casos nacionais que mais tinta fez correr. Em 16 de Fevereiro de 2020, o maliano Moussa Marega abandonou o campo num Vitória de Guimarães-FC Porto, após persistentes insultos racistas de adeptos vimaranenses, num caso que chocou o país e o mundo do futebol. Corria o minuto 71 da partida da I Liga quando Marega, que além dos 'dragões' também tinha representado o clube de Guimarães, disse 'basta' e deixou o relvado do estádio D. Afonso Henriques, após uma 'chuva' persistente de insultos e cânticos racistas que o visavam desde o aquecimento para a partida.
O dia em que Marega abandonou o relvado após insultos racistas
Aconteceu há um ano, num jogo Vitória de Guimarães-FC Porto.
Os dados e processos instaurados mostram que o problema não é exclusivo de palcos nacionais e europeus. Também na Madeira existem registos de alegados casos de racismo no desporto que motivaram intervenção oficial.