DNOTICIAS.PT
Turismo Madeira

Cidades portuárias e cruzeiros debatem equilíbrio entre turismo e qualidade de vida no Funchal

None

A relação entre o turismo de cruzeiros e as cidades portuárias esteve em destaque, na manhã de ontem, na Cimeira Europeia da CLIA, que decorre até 26 de Fevereiro no Funchal. O fórum reuniu representantes de portos, decisores políticos e associações da Islândia, Noruega, Malta, Oslo e Portugal, num debate moderado por Mark Robinson centrado na sustentabilidade, na gestão de fluxos e no impacto social do sector.

A Madeira marcou presença com números expressivos: 319 escalas e 742 mil passageiros em 2025, valores próximos dos 950 mil registados em Malta, reforçando o papel da ilha como hub atlântico de Inverno.

Carlos Rodrigues, vice-presidente da Câmara Municipal do Funchal, abriu os trabalhos contextualizando a relação histórica da cidade com o mar. Citado através de nota à imprensa, o responsável disse: "Somos uma cidade portuária desde o início da nossa existência; a chegada de navios era um acontecimento nos jornais locais, significando que não estávamos sozinhos no mundo, mesmo a 800 km da terra mais próxima. Hoje, todos na Madeira sentem fascínio ao ver um cruzeiro manobrar." O autarca não deixou de alertar para as tensões que o crescimento do sector coloca: "O aumento do tamanho dos navios e o perfil independente dos passageiros pressionam as infraestruturas; cidades não são parques de diversões – há escolas, empregos e saúde. O equilíbrio entre receitas turísticas e qualidade de vida é frágil." A solução, defendeu, passa pela cooperação: "Só sobrevivemos trabalhando lado a lado, não uns contra os outros." Referiu ainda o novo Plano de Mobilidade Urbana Sustentável do Funchal, que integra turismo com acessibilidades e circuitos, "envolvendo todos – privados, operadores e associações."

Do lado nórdico, Monica Berstad, directora executiva da Cruise Norway, apresentou um modelo que evoluiu do marketing para a educação de políticos sobre o valor económico dos cruzeiros em 60 portos. "Passámos de marketing para educar políticos municipais e nacionais sobre o valor dos cruzeiros em 60 portos. De três meses sazonais, somos agora all-year-round com 50-60 companhias." Bergen é já exemplo de exigências ambientais avançadas, com "shore power" obrigatório desde 2018, embora a responsável reconheça que "energia hidroelétrica não chega para todos." A visão para 2035 é receber "cruzeiros todo o ano, um navio diário, respeitando equilíbrio em cada destino."

A Islândia apresentou um modelo de coordenação assente numa plataforma central de reservas. Emma Kjartansdóttir, da Cruise Iceland, explicou que a iniciativa "reúne portos, municípios e fornecedores para uma voz alinhada", com dois portos já equipados com shore power geotérmico, ainda que com capacidade limitada. "Precisamos de comunicar melhor os esforços ambientais que as companhias estão a fazer às populações locais", frisou.

Malta foi apresentada como caso de sucesso mediterrânico. Stephen Xuereb, director executivo da Global Port Holdings, referiu que o investimento de 50 milhões de euros em shore power compensou, impulsionado pela elevada densidade populacional em torno do porto de La Valeta. O modelo assenta numa rede que une stakeholders e "gera 140 milhões anuais e regressos prolongados." Xuereb deixou um aviso aos presentes: há que "antecipar problemas", de forma a evitar o que aconteceu em Veneza, "onde os cruzeiros foram alvo fácil", apelando ainda à diversificação do calendário de escalas "para evitar picos."

Os dados económicos foram analisados por Christian Savelli, da Oxford Economics, que sublinhou o valor do tempo de permanência nos destinos: "Os destinos devem compreender valor", defendeu, explicando que um dwell time de 5-7 horas acelera gastos em 23 euros por hora. Entre 60 a 80% dos passageiros de cruzeiro visitam o destino pela primeira vez, e 75% regressam posteriormente para estadias mais longas — um efeito que, no seu entender, "tem sido subestimado pelas autoridades de gestão." Após o forte crescimento pós-pandemia, Savelli nota contudo uma maior sensibilidade aos preços.

O debate com a plateia trouxe ainda à superfície a falta de guias turísticos certificados e multilingues, com uma representante da MSC a defender que "os destinos precisam de melhorar a oferta." Foram também levantadas questões de harmonização regulatória e transparência fiscal, nomeadamente em torno de taxas turísticas, ambientais e culturais. A mensagem foi direta: "Mostrem os projetos e expliquem onde serão alocadas as receitas. As pessoas entendem."

A fechar, Xuereb deixou um apelo ao setor: "A Europa é única pelo seu património. Planeiam infraestruturas sustentáveis para o futuro."