DNOTICIAS.PT
Madeira

Mais de 70% dos jovens da Região já sofreram violência no namoro

Resultados do Estudo da Violência no Namoro 2026 do projecto ART’THEMIS+ “são alarmantes”

None

Mais de 70% dos jovens da Região Autónoma da Madeira que já tiveram ou têm uma relação de namoro afirmam ter experienciado pelo menos uma forma de violência.

Os dados foram apresentados, esta manhã, pela UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), no âmbito do estudo nacional ‘Violência no Namoro em Portugal: Vitimação e Concepções Juvenis”, integrado no projecto ART’THEMIS+, tendo em conta a celebração do Dia dos Namorados, a 14 de Fevereiro.

Na Madeira participaram 895 jovens, tendo sido a maior amostra de sempre na Região, com idades compreendidas entre os 12 e os 18 anos e média de 14 anos. Do total, 47,8% identificam-se com o género feminino, 48,9% com o masculino e 1% com outros géneros. A nível nacional, o estudo envolveu 8.080 jovens.

Entre os 55,9% de inquiridos que indicaram já ter tido ou ter actualmente uma relação de namoro, 70,5% reportam ter vivido pelo menos uma das formas de violência analisadas. O controlo surge como a forma mais prevalente (50,1%), seguido da violência psicológica (41,4%), da perseguição (36,4%) e da violência através das redes sociais (22,3%). A violência sexual atinge 19,5% e a física 9,9%. Os comportamentos mais frequentemente experienciados são ‘proibir de estar ou falar com alguém’ (35,9%) e ‘insultar durante uma discussão’ (33,8%).

Outro dado que preocupa a equipa é o da legitimação da violência. Segundo o estudo, 68,9% dos jovens madeirenses não reconhecem como violência no namoro pelo menos um dos 15 comportamentos avaliados. O controlo lidera também neste indicador, sendo legitimado por 55,4% dos inquiridos, seguido da perseguição (39,2%) e da violência psicológica (27%).

A violência através das redes sociais é legitimada por 17,9% dos jovens, a violência sexual por 15,8% e a física por 5,8%. Entre os comportamentos mais normalizados estão ‘aceder às redes sociais ou aplicações de mensagens sem pedir autorização’ (33,3%) e ‘procurar-te no dia a dia de forma insistente’ (32,5%).

“Temos 68,9% dos jovens que não percepcionam como violência no namoro pelo menos um dos comportamentos estudados, o que nos preocupa imenso”, afirmou Joana Martins, coordenadora do núcleo da UMAR na Madeira, durante a conferência. A responsável sublinhou que muitos destes comportamentos são frequentemente romantizados, sobretudo no contexto digital. “Há jovens que acham que é normal aceder ao telemóvel do outro porque ‘somos um do outro’ e a privacidade desvanece”, explicou.

A análise por género revela diferenças significativas, sendo os rapazes quem mais legitimam todas as formas de violência estudadas. Posto isso, 42,2% dos rapazes incluídos neste estudo não reconhecem como violência ‘proibir de vestir uma peça de roupa’, face a 21,5% das raparigas. Por outro lado, ‘insultar durante uma discussão’ não é considerado violência por 30% dos rapazes e 12,6% das raparigas.

Também na violência sexual se verifica discrepância.

Apesar de tradicionalmente as raparigas surgirem como principais vítimas, a UMAR destacou que há cada vez mais rapazes a reportar situações de violência, incluindo física. “Temos mais rapazes a denunciar violência física do que raparigas. Isso pode indicar maior consciência, embora continuem a legitimar mais comportamentos do que elas”, referiu Joana Martins, acrescentando que o fenómeno é estrutural e transversal a ambos os géneros.

A equipa reconhece que não é possível comparar directamente os resultados com os do ano anterior, uma vez que o questionário foi reformulado após sugestões do Ministério da Educação e a amostra na Madeira ter sido alargada a mais concelhos, mantendo-se o anonimato das escolas participantes. Ainda assim, as conclusões “são alarmantes.”

Durante a sessão, foi ainda referida a influência das redes sociais e de discursos mais conservadores nas percepções dos jovens, bem como a necessidade de um trabalho contínuo de prevenção em contexto escolar.