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Aguenta!

O clamor importado pela habitação conta semanas, mas a forma superou a essência, o que garantiu a parte teatral. Vieram as assembleias populares, o campeonato da resistência, os discursos de barricada e a provocação. A esquerda radical, praticamente varrida do parlamento, encontrou na rua alguma prova de vida.

Do outro lado, para que a representação resulte, convém criar um Estado feroz, de autoridade férrea com maneiras pidescas. À frente dessa temível máquina repressiva surge, imagine-se, o fantasmagórico ministro do GTD do «Xuxa», o que exige algum esforço para fazer daquela hirta figurinha um ditador. O circo também montou a tenda, portanto, mais cedo.

O tema da habitação é primordial também na Madeira, numa terra cada vez mais talhada para o turismo em prejuízo dos madeirenses. Terra, aliás, onde alguns governantes somam imóveis, em contraciclo com as crescentes dificuldades da restante população.

A Câmara Municipal do Funchal, de Jorge Carvalho, afirmou já não ser necessário demolir um dos prédios do Conjunto habitacional Canto do Muro, um autêntico gueto edificado pela CMF num “abica-burros” das margens da ribeira do Lazareto na transição do século passado, que cabe literalmente na metáfora daqueles que vivem “debaixo da ponte”. Cristina Pedra, que “herdou” a câmara de Pedro Calado, afirmou perentoriamente em agosto do ano passado que aquele prédio (entretanto desocupado devido a graves situações estruturais sustentadas em estudos técnicos) teria de ser demolido. Agora, o atual edil afirma que por mais 3 milhões de euros, aquilo “vai aguentar”.

E “vai aguentar” também Pedro Calado, que, após a “hollywoodiana” operação policial de 2024 que o apartou da vida pública, tem vindo a dar sinais de “reabilitação política”, cuja intenção foi candidamente revelada pelo DIÁRIO há poucos dias, como um extrato do pináculo da redenção humana de Jean Valjean, de “Os Miseráveis”, de Victor Hugo. Só falta atestar se o regresso será triunfal, mesmo que ainda haja muita água a passar por debaixo da ponte.

E porque a Madeira é fecunda na dialética entre políticos e justiça, soubemos que haverá meia centena de acusados da operação “Ab Initio”, um número suficiente para encher um autocarro, o que só sustenta a ideia de que, apesar da nossa pequenez geográfica, somos grandes noutros planos, o que certamente nos ajuda na promoção.

A grande maioria dos seis deputados eleitos pela Madeira em São Bento viabilizou o Orçamento de Estado para 2027. Os do PSD, obedientemente, sem açaime, anuíram; os do PS e JPP ensaiaram aquela oposição envergonhada e de face corada, abstiveram-se. Apenas o deputado do Chega, espumando, votou contra.

Se todos estes aguentam, nós também aguentamos!