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Dia Mundial da Menopausa

Organizações pedem medidas para melhorar cuidados de saúde e protecção laboral na menopausa

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Foto Deposit Photos

Assinala-se anualmente, a 18 de Outubro, o Dia Mundial da Menopausa, que objectiva sensibilizar para a importância da menopausa e o seu impacto na saúde das pessoas. Em 2026, o tema é ‘Dor crónica na meia-idade’, com o intuito de alertar para o facto de que a dor crónica afecta uma proporção significativa de pessoas durante e após a transição para a menopausa, mas continua a ser subestimada tanto na investigação como nos cuidados de saúde.

O Dia Mundial da Menopausa foi criado em 2009, pela Sociedade Internacional da Menopausa em colaboração com a Organização Mundial de Saúde. A menopausa é uma fase natural da vida das mulheres, homens trans e pessoas não binárias com ovários, mas os sintomas que lhe estão associados continuam, em muitos casos, a ser desvalorizados ou encarados como inevitáveis. Sintomas que afectam seriamente a qualidade de vida destas pessoas.

A menopausa não é uma doença, mas quando sintomas como afrontamentos, perturbações de sono, alterações de humor, secura vaginal, etc. se prolongam por anos, é preponderante não desvalorizar este que é um processo biológico natural na vida de pessoas com ovários. Neste particular destacar, este ano, a dor crónica associada a este período. Muitas vezes a dor manifesta-se de diferentes formas ao mesmo tempo, das articulações à cefaleia, da dor pélvica ao cansaço.

Todas estas dores são reais, com causas físicas, mesmo que tudo pareça bem em exames e análises. A Sociedade Internacional da Menopausa vinca que, nestes casos, urge pedir ajuda profissional, ao invés de aceitar que a dor é normal e algo com a qual é preciso viver. As mulheres têm uma probabilidade superior em 70% a sofrer dor crónica, em relação aos homens. Quase três em cada quatro acusam dores nos músculos ou articulações na perimenopausa.

É considerada dor crónica aquela que perdura, ou vai e volta, por um período superior a três meses. O sistema central começa a ficar mais sensível e a reagir mais fortemente a estímulos que anteriormente não resultavam em dores tão fortes. A dor é real e está, muitas vezes, relacionada com a síndrome musculoesquelética da menopausa, um conjunto de alterações e sintomas que afectam ossos, músculos, articulações e tendões, impulsionado pela queda abrupta dos níveis de estrogénio.

A queda de estrogénio impacta, também, a forma como o cérebro percepciona a dor. Assim, muitas vezes, a menopausa obriga à alteração de hábitos de vida. O exercício é importante, particularmente treinos de força que permitem ajudar músculos e articulações ao longo do tempo. Atenção, também, ao stress e ao sono. Níveis de stress altos e má qualidade de sono podem tornar a dor ainda menos suportável.

Não existe uma ‘cura’ para os sintomas, às vezes adversos, da menopausa. Contudo, existem diversos tratamentos que podem ajudar, como a hormonoterapia, a fisioterapia e alguma medicação que poderá ser prescrita por um profissional. A consulta médica é imprescindível para uma menopausa mais prazerosa.

A menopausa é um assunto se saúde pública

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) a maioria das mulheres vive a menopausa entre os 45 e os 55 anos, mas nem todas. Para algumas, chega ainda antes dos 40, por alterações cromossómicas, doenças autoimunes ou causas que nem sempre se conhecem. Para outras, é provocada por uma cirurgia que remove os dois ovários ou por tratamentos como a radioterapia e a quimioterapia.

Quem vive a menopausa mais cedo corre o risco de ficar sem diagnóstico por ser “nova demais”, uma vez que campanhas, consultas e protocolos foram pensados para a mulher de meia-idade. Há, ainda, quem fique totalmente fora da equação, com a OMS a lembrar que homens trans e algumas pessoas não binárias passam pela menopausa, mas poucos dados existem sobre as suas experiências, apesar de terem necessidades de saúde específicas.

Neste Dia Mundial da Menopausa, organizações da sociedade civil uniram-se para pedir consultas especializadas no SNS, comparticipação de tratamentos e medidas de protecção laboral na menopausa, numa carta de recomendações em que alertam para o incumprimento do prazo para apresentar a estratégia nacional.

A Carta de Recomendações sobre Menopausa, promovida pela Associação para o Planeamento da Família, pela A Coletiva e o EsqLab, pretende contribuir para o debate público, apresentando recomendações em três áreas distintas, nomeadamente o acesso aos cuidados de saúde, protecção no trabalho e literacia e sensibilização.

A menopausa é uma fase natural da vida que afecta uma parte significativa da população, mas continua rodeada de silêncio, desinformação e falta de resposta adequada por parte dos serviços de saúde. Apesar dos avanços mediáticos e parlamentar nos últimos anos, com propostas para o alargamento de consultas de Planeamento Familiar e a previsão de uma Estratégia Nacional para os Direitos na Menopausa, o prazo de implementação da Estratégia Nacional (previsto para meados de 2026) foi ultrapassado sem concretização por parte do Governo. Carta de Recomendações sobre Menopausa

Notam, ainda, que a estratégia também não consta da proposta do Orçamento do Estado para 2027, pelo que se impõe “não apenas propor novas medidas, mas exigir a concretização das já aprovadas, com financiamento, prazos, responsabilidades e mecanismos de fiscalização e prestação pública de contas definidos”.

As organizações apelam à criação de consultas e respostas especializadas no SNS, a capacitação dos profissionais e uma resposta dedicada através da Linha SNS 24. Recomendam também a uniformização do acesso às terapêuticas hormonais e não hormonais e a comparticipação dos tratamentos.

O documento propõe reforçar a informação sobre a menopausa e combater a desinformação e a 2comercialização enganosa de suplementos e tratamentos sem evidência científica”, bem como promover cuidados inclusivos que reconheçam e validem “a diversidade de todas as orientações e identidades, bem como a realidade das pessoas com corpos não normativos”.

A menopausa não é uma experiência exclusiva das mulheres. Homens trans e pessoas não binárias com ovários também podem viver a menopausa e, frequentemente, enfrentam barreiras acrescidas no acesso a cuidados de saúde adequados e informação ajustada à sua identidade. Carta de Recomendações sobre Menopausa

No âmbito laboral, as entidades defendem medidas que permitam adaptar as condições de trabalho às necessidades de quem atravessa a menopausa. Entre as propostas estão horários flexíveis, pausas, possibilidade de teletrabalho sem perda de rendimento e a integração do tema na Medicina do Trabalho e na contratação colectiva.

As organizações recomendam também uma fiscalização activa por parte da Autoridade para as Condições do Trabalho e da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego, para prevenir situações de discriminação ou penalização profissional associadas à menopausa.

Na área da literacia e sensibilização, a carta propõe campanhas públicas de informação sem estigmas, a inclusão do tema nos currículos de educação para a saúde e uma abordagem positiva da saúde sexual e do prazer no envelhecimento. Propõe, ainda, a promoção da investigação sobre a menopausa em Portugal e a recolha de dados que permitam fundamentar políticas públicas.

O documento resulta do trabalho colaborativo desenvolvido nas Jornadas da Menopausa, realizadas no passado dia 10 de Outubro, que reuniram profissionais de saúde, investigadores, activistas e representantes da sociedade civil.