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Explicador Madeira

A tradição do Bolo Rei na cultura madeirense

O tradicional mega Bolo-Rei regressou este domingo a Câmara de Lobos, naquela que foi já a sua décima edição, numa iniciativa promovida pela Câmara Municipal. A montagem decorreu no Mercado Municipal de Câmara de Lobos, com apresentação oficial pelas 11 horas, seguindo-se o corte e a distribuição do bolo por todos os visitantes.

O evento integra o programa de festas de Natal e fim-de-ano promovido pela autarquia em parceria com o comércio local, com o objectivo de assinalar o Dia de Reis e, simultaneamente, dinamizar a actividade económica da zona baixa da cidade.

Desde 2013, o mega Bolo-Rei tem atraído inúmeros visitantes à Praça da Autonomia, embora este ano, devido à instabilidade meteorológica, o evento tenha sido transferido para o Mercado Municipal.

Esta iniciativa é um exemplo claro de como o Bolo-Rei continua a ter um papel central nas tradições madeirenses, funcionando não apenas como símbolo religioso e cultural, mas também como elemento de convívio comunitário e promoção local. Neste Explicador, esclarecemos como surgiu esta tradição.

Uma doce coroa na época natalícia

O Bolo Rei também conhecido também como Bolo dos Reis ou King Cake, é um bolo tradicional da quadra natalícia em Portugal, com presença destacada na Madeira, assim como no restante território nacional. O bolo tem forma redonda com um grande orifício no centro, recordando a forma de uma coroa, e é feito de uma massa branca e fofa enriquecida com frutos secos e frutas cristalizadas.

A sua simbologia está ligada à celebração da Epifania (Dia de Reis), no dia 6 de Janeiro, quando segundo a tradição cristã os Três Reis Magos visitaram o Menino Jesus. Por isso, o bolo representa essa coroa festiva que encerra a época natalícia.

Na Madeira, como no resto de Portugal, é habitual consumir este bolo desde o final de Dezembro até ao Dia de Reis, sendo parte integrante das mesas familiares e dos convívios entre amigos nesta época festiva.

Qual a sua origem?

A tradição chegou a Portugal no século XIX, por influência francesa, mas rapidamente ganhou características próprias e enraizou-se nos costumes populares. Com o tempo, passou a ser consumido desde o Natal até ao Dia de Reis, tornando-se presença habitual nas mesas familiares.

O Bolo-Rei na Ilha da Madeira

Na Ilha da Madeira, o Bolo-Rei está profundamente associado às celebrações do Dia de Reis, muitas vezes ligadas a momentos de partilha, convívio e às tradicionais cantorias. É comum, sobretudo na noite de 5 para 6 de Janeiro, grupos organizados ou informais saírem à rua para ‘Cantar os Reis’ e visitar casas, instituições e espaços públicos.

Embora a receita do Bolo-Rei madeirense não seja muito diferente substancialmente da versão do continente, o seu significado cultural ganha especial relevo pelo contexto comunitário em que é consumido, como demonstram iniciativas públicas como o mega Bolo-Rei de Câmara de Lobos.

A tradição da fava e do brinde

Historicamente, o Bolo-Rei incluía dois elementos simbólicos no seu interior, sendo eles a fava e o brinde.

A fava tem origem em tradições muito antigas, anteriores ao cristianismo, ligadas às Saturnais romanas. Em Portugal, ficou associada à ideia de que quem encontrasse a fava teria de pagar o próximo Bolo-Rei, mantendo viva a tradição no ano seguinte.

O brinde, normalmente um pequeno objecto metálico ou de cerâmica, simbolizava boa sorte para quem o encontrasse.

Estes elementos transformavam o bolo num momento lúdico, sobretudo em contexto familiar.

A fava e o brinde estão proibidos?

Muita gente pensa que a tradição de colocar fava e/ou brinde no Bolo Rei foi proibida por lei. A realidade é mais complexa do que isso, e a informação disponível mostra que não se trata de uma proibição absoluta, mas sim de uma alteração às regras de segurança alimentar.

Segundo um artigo da ALS Portugal (marca de referência na prestação de serviços de Segurança Alimentar) , a inclusão tradicional de elementos surpresa, como a fava ou pequenos brindes, no interior do Bolo Rei passou a estar fortemente condicionada pelos Decretos Lei n.º 291/2001 e n.º 43/2011. Estas normas desencorajam a prática, porque as exigências legais para que os brindes possam ser utilizados são hoje tão rigorosas que poucos produtores as conseguem cumprir, fazendo com que a tradição caia em desuso.

A legislação que regula a matéria proíbe a comercialização de géneros alimentícios com mistura directa de brindes, ou seja, objectos estranhos misturados na massa. Ainda assim, a lei não impede totalmente a inclusão de brindes, desde que respeitem determinados requisitos.

Primeiramente, o brinde deve ser claramente distinguível do alimento pela sua cor, tamanho, forma e apresentação. Deve, também, cumprir requisitos específicos de segurança e rotulagem relativos ao tipo de objecto que é e deve ser concebido de forma a não representar riscos de asfixia, perfuração, envenenamento ou obstrução do aparelho digestivo no momento de manusear ou ingerir o bolo.

A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) confirma que a lei não proíbe categoricamente a comercialização de Bolo Rei com brinde ou fava, mas proíbe a venda de produtos alimentares que contenham brindes misturados directamente na massa sem que obedeçam às regras de segurança alimentar.

Tradição mantém-se viva, mesmo sem fava e brinde

Apesar das mudanças, o Bolo-Rei mantém o seu valor simbólico e cultural, como demonstra a forte adesão a iniciativas públicas na Madeira, como a de Câmara de Lobos. Seja em versão tradicional, sem fava ou em formato gigante, o bolo continua a cumprir a sua função principal que passa por reunir pessoas, celebrar o Dia de Reis e reforçar o sentimento de comunidade.