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Madeira

Cinco vítimas acompanhadas pelo Grupo VITA são da Madeira

Grupo de acompanhamento das situações de violência sexual no contexto da Igreja Católica em Portugal auscultou 86 pessoas

Apresentação do IV Relatório de Actividades do Grupo Vita
Apresentação do IV Relatório de Actividades do Grupo Vita,   Foto Agência ECCLESIA/PR

O Grupo de Acompanhamento das situações de violência sexual no contexto da Igreja Católica em Portugal acompanha cinco pessoas da Região Autónoma da Madeira. O número foi avançado ao DIÁRIO pela coordenadora do Grupo VITA, Rita Agulhas. 

O mais recente relatório de actividade da estrutura independente criada pela Igreja Católica em Portugal para acolher denúncias de violência sexual em contexto eclesial, divulgado ontem, indica que 86 vítimas e sobreviventes foram escutados individualmente, maioritariamente em sessões presenciais, com uma duração média de duas horas e meia. A distribuição geográfica dos casos auscultados é liderada pela Área Metropolitana de Lisboa (36,6%), seguida das regiões Norte (30,5%) e Centro (20,7%). A Região Autónoma da Madeira agrega 3,7% dos ouvidos. 

Segundo Rita Agulhas, o Grupo VITA realizou uma deslocação à Região, com a duração de vários dias, para atender "todas as pessoas [cinco]" sinalizadas. 

A discrepância entre a percentagem relativa à Região Autónoma da Madeira e o número de casos acompanhados na Região deve-se ao facto de os dados geográficos reflectirem a residência actual das vítimas, enquanto os processos se referem ao local onde os factos ocorreram, neste caso, na Madeira, explica o Grupo VITA, ao DIÁRIO. 

Desde o início das suas funções, em 2023, o Grupo VITA recebeu 850 chamadas telefónicas e foi contactado por 154 vítimas e sobreviventes de violência sexual, bem como por uma pessoa que cometeu crimes sexuais no contexto da Igreja. Foram ainda registados 43 pedidos de ajuda relativos a situações fora do âmbito da missão do Grupo VITA, que foram encaminhados para as entidades competentes.

Entre as necessidades mais frequentemente identificadas pelas vítimas e sobreviventes destaca-se o apoio psicológico, com 34 pedidos, seguido do apoio social (sete pedidos) e do apoio psiquiátrico (cinco pedidos).

No total, foram escutadas 86 vítimas e sobreviventes, sendo a maioria do sexo masculino (65,1%), com idades compreendidas entre os 21 e os 78 anos. A idade média é de 54,5 anos, tratando-se, em geral, de uma população escolarizada, com 40,7% a possuir formação superior.

Segundo o relatório, a maioria das vítimas e sobreviventes é de nacionalidade portuguesa (97,7%) e 60,5% tem filhos. Cerca de 50% encontra-se profissionalmente activa, enquanto aproximadamente 20% está reformada.

As situações de violência sexual reportadas ocorreram entre 1955 e 2023, concentrando-se maioritariamente no século passado. O relatório indica que “75,6% dos episódios ocorreram no século XX, sobretudo nas décadas de 1960, 1970 e 1980”, verificando-se um decréscimo expressivo no número de casos reportados a partir da década de 1990.

O caso referente a 2023 diz respeito a um adulto vulnerável e ocorreu no contexto na igreja.

A idade média na primeira situação de vitimização é de 11 anos, sendo os 10 e 11 anos as idades mais frequentemente referidas. À data dos alegados factos, 75,6% das vítimas vivia com a família nuclear, enquanto cerca de 20,9% residia em instituições religiosas, incluindo casas de acolhimento e seminários.

No que respeita à revelação das situações abusivas, o relatório refere que “cerca de um terço das vítimas e sobreviventes (31,4%) decidiu partilhar a sua experiência apenas agora”, sendo que 20% o fez pela primeira vez junto do Grupo VITA.

A maioria das vítimas e sobreviventes não apresentou denúncia, nem às estruturas da Igreja (77,9%), nem aos Órgãos de Polícia Criminal ou ao Ministério Público (87,2%). A ausência de revelação à época dos factos esteve sobretudo associada a sentimentos de vergonha, medo, culpa e receio de não serem acreditados.

A quase totalidade das vítimas e sobreviventes identifica o agressor, sendo que “em 91,8% dos casos o agressor era sacerdote”. Os agressores são predominantemente do sexo masculino (98,8%) e eram, na maioria das situações, conhecidos das vítimas em contexto ligado à Igreja.

Os abusos ocorreram sobretudo em espaços religiosos, com destaque para o confessionário (34,8%), seguido da sacristia, residências paroquiais, instituições religiosas e contexto de seminário. Os comportamentos sexualmente abusivos mais frequentemente reportados incluem toques ou carícias em zonas erógenas (45,3%) e manipulação dos órgãos genitais (43,0%).

No âmbito dos processos de compensação financeira, foram recebidos 95 pedidos, dos quais 11 foram arquivados liminarmente. Até ao momento, 91% dos pareceres foram enviados à comissão responsável pela fixação das compensações. No total, 74,4% das vítimas e sobreviventes acompanhados pelo Grupo VITA apresentaram um pedido de compensação, não se verificando associação significativa entre esse pedido e fatores como sexo, idade ou duração da vitimização.