Guterres feliz com atribuição de nacionalidade portuguesa a descendentes de judeus expulsos
O secretário-geral da ONU admitiu hoje estar "feliz por ver dezenas de milhares de descendentes" de famílias judias expulsas de Portugal no século XVI "a recuperar a nacionalidade portuguesa".
Numa cerimónia na Assembleia-Geral da ONU, em Nova Iorque, António Guterres assinalou o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto e lembrou uma das "conquistas pessoais" enquanto primeiro-ministro de Portugal, nomeadamente o trabalho com o parlamento português para aprovar um decreto que revogou a expulsão dos judeus ocorrida no século XVI.
Um decreto do rei Manuel I ordenou a expulsão de todos os judeus que se recusaram a se converter ao cristianismo.
Em 1996, enquanto primeiro-ministro, Guterres impulsionou a revogação parlamentar dessa carta de expulsão.
"Para mim, a memória do Holocausto --- e a luta contra o velho veneno do antissemitismo --- não é abstrata. É pessoal. Uma das minhas conquistas pessoais enquanto primeiro-ministro de Portugal foi trabalhar com o parlamento para aprovar um decreto que revogou a expulsão dos judeus do meu país, ocorrida no século XVI", declarou Guterres, perante uma audiência que incluía sobreviventes do Holocausto e familiares.
"Fico feliz por ver dezenas de milhares de descendentes destas famílias expulsas a recuperar a nacionalidade portuguesa", acrescentou.
Foi "um passo simbólico", disse.
"Demonstrou a importância de reconhecermos a profundidade do nosso remorso, incluindo o remorso pelos crimes do nosso país, o remorso pelo passado e o nosso compromisso de construir um futuro melhor e mais inclusivo", sublinhou.
O líder da ONU referia-se a uma norma, que remonta a 2013, entretanto alterada, que permitia a atribuição da nacionalidade portuguesa, por naturalização, aos descendentes de judeus sefarditas expulsos de Portugal.
Guterres lembrou o contacto com a comunidade judaica e garantiu que sempre compreendeu "a clara ligação entre os horrores do Holocausto e o espírito de multilateralismo, justiça e direitos" que levou à fundação da ONU.
O secretário-geral alertou para os perigos de "distorcer e negar" o passado e reforçou a necessidade de confrontar o antissemitismo e educar as novas gerações.
António Guterres, que termina o segundo e último mandato como chefe da ONU no final deste ano, lembrou ainda que, há pouco mais de 80 anos, começaram os julgamentos de Nuremberga contra os líderes da Alemanha nazi, representando o início de uma nova era no direito penal internacional.
Guterres pediu agora o mesmo nível de responsabilização contra os mais poderosos.
"Uma nova era em que os indivíduos, incluindo os mais poderosos, são responsabilizados. Hoje, mais do que nunca, precisamos de resgatar esse espírito", defendeu.
"Essas influências --- antissemitismo, racismo, ódio --- continuam bem presentes. O nosso dever é claro: Dizer a verdade. Educar as novas gerações. Confrontar o antissemitismo e todas as formas de ódio e discriminação. E defender a dignidade de todo o ser humano", sublinhou.
A sede das Nações Unidas assinala o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, com uma cerimónia no salão da Assembleia-geral, sob o tema "A Memória do Holocausto pela Dignidade e pelos Direitos Humanos".
O evento conta com depoimentos de sobreviventes do Holocausto e discursos oficiais do secretário-geral, da presidente da Assembleia-Geral das Nações Unidas e dos representantes das Missões Permanentes de Israel e dos Estados Unidos na ONU.