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ONU alerta para situação "muito tensa" e alarmante crise humanitária na Síria

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A ONU alertou ontem que a situação no norte e nordeste da Síria continua "muito tensa", com tiroteios e confrontos entre o Exército e as forças curdas, intensificada por uma "alarmante crise humanitária e de proteção".

Numa apresentação perante o Conselho de Segurança da ONU, o secretário-geral adjunto para o Médio Oriente, Khaled Khiari, lembrou que, após o fracasso de uma nova rodada de negociações em 04 de janeiro para implementar um acordo assinado em março de 2025, intensos combates deflagraram em bairros controlados pelas Forças Democráticas Sírias (FDS) na cidade de Aleppo.

Khiari indicou que a Síria está, neste momento, no segundo dia de um "período crítico", referindo-se a um entendimento mútuo entre o Governo Sírio e as FDS para uma janela temporal de quatro dias para consultas em direção a um eventual cessar-fogo.

"Gostaria de salientar que existe uma alarmante crise humanitária e de proteção, com uma necessidade urgente de todas as partes garantirem a proteção dos civis e das infraestruturas civis, e de assegurarem o acesso humanitário imediato e sem entraves", afirmou o representante da ONU.

Khiari instou ambas as partes a aderirem rapidamente a um cessar-fogo, de forma a garantir uma integração pacífica do nordeste da Síria, em apoio de uma transição mais ampla da Síria.

Face à situação no terreno, o secretário-geral da ONU, António Guterres, nomeou um novo enviado especial adjunto para a Síria, Claudio Cordone, para promover o apoio à transição política, e uma nova coordenadora residente e humanitária interina, Nathalie Fustier, para apoiar a recuperação no país.

Num olhar mais positivo, Khaled Khiari destacou o recente decreto anunciado pelo Presidente, Ahmad al-Sharaa, relativo aos direitos linguísticos, culturais e de cidadania dos curdos sírios no Estado sírio, frisando que é uma iniciativa encorajadora em direção a um processo verdadeiramente inclusivo.

Reconheceu também os importantes passos que o Governo Sírio está a dar para alcançar justiça para as vítimas de abusos e combater a impunidade, "tanto passada como presente".

No entanto, o secretário-geral adjunto alertou que o grupo extremista Estado Islâmico (EI) representa ainda uma ameaça persistente no país e admitiu preocupação com a presença de combatentes terroristas estrangeiros na Síria.

Durante os combates no nordeste da Síria, o controlo de alguns centros de detenção de combatentes do EI passou das FDS para as forças governamentais, havendo "indícios de que alguns detidos escaparam", disse.

Na reunião esteve também presente a diretora da divisão de Resposta a Crises do Gabinete para a Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU, Edem Wosornu, que sublinhou que reverter uma situação humanitária da escala e complexidade da crise síria nunca será fácil.

As últimas semanas expuseram a vulnerabilidade do país aos conflitos e aos perigos do inverno, com os combates dentro e fora de Alepo a deslocarem dezenas de milhares de pessoas.

Também a remoção de resíduos explosivos continua a ser uma prioridade em toda a Síria, com mais de 540 mortos e quase 1.000 feridos devido a este problema em 2025.

Os restos de explosivos continuam a impedir o regresso das pessoas à casa e a reconstrução de meios de subsistência, principalmente para agricultores.

Apesar destes desafios, os sírios de todo o país continuam a trabalhar para construir um futuro melhor, afirmou Edem Wosornu, destacando que mais de três milhões de refugiados e deslocados internos regressaram a casa desde dezembro de 2024, data da queda do regime de Bashar al-Assad.

A ONU está a fornecer abrigo, alimentação, assistência médica, nutricional e proteção em Alepo e noutras áreas afetadas, quer por confrontos, quer pelas intempéries, com a diretora a pedir à comunidade internacional um aumento dos investimentos em recuperação e financiamento humanitário.

"Devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para apoiar o povo da Síria neste esforço", pediu Edem Wosornu.

Ambos os representantes da ONU concordaram que "impedir uma escalada da violência é fundamental para consolidar o progresso alcançado no primeiro ano da transição síria".