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TV estatal do Irão aponta mais de três mil mortos durante protestos antigovernamentais

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Foto Shutterstock

A televisão estatal do Irão noticiou hoje que 3.117 pessoas foram mortas durante os protestos antigovernamentais, usando dados da Fundação para os Veteranos e Mártires, no primeiro balanço oficial da repressão das autoridades da República Islâmica.

Entre os mortos, 2.427, incluindo membros das forças de segurança, são considerados "mártires" no sentido islâmico do termo, por serem vítimas "inocentes", acrescentou a IRIB, citando um comunicado da fundação.

Contudo, o Governo não forneceu detalhes sobre a identidade dos quase 700 restantes, segundo o comunicado divulgado pela emissora.

De acordo com a organização Iran Human Rights (IHRNGO), com sede na Noruega e cujos números são citados pela ONU, pelo menos 3.428 manifestantes foram mortos desde o início dos protestos, em 28 de dezembro, recorrendo a informações confirmadas diretamente ou por várias fontes, incluindo serviços médios e morgues.

A organização avisa porém que o total deverá ser superior, tal como indicam dados de outras entidades, como a agência de notícias dos Ativistas de Direitos Humanos, sediada nos Estados Unidos, que somou 4.560 mortos que conseguiu verificar.

Outras estimativas apontam para números ainda maiores, podendo atingir os 20 mil, apesar do balanço oficial de hoje e das dificuldades de comunicações no Irão, sujeito a um bloqueio de Internet durante os protestos, que começaram a ser dissipados na semana passada.

"Por que crime morreram estas crianças oprimidas do Irão? O sangue inocente da juventude foi cruelmente derramado por elementos terroristas treinados", afirmou a fundação no comunicado, referindo que, nos protestos, "muitos eram espetadores" e alguns eram manifestantes "atingidos a tiro por elementos terroristas organizados no meio da multidão".

A fundação avisou ainda que Teerão "não perdoará os terroristas afiliados no regime sionista criminoso", referindo-se a Israel, "nem os seus seguidores e agentes que foram apoiados, equipados e armados por líderes criminosos nos Estados Unidos".

Mais tarde, o Conselho de Segurança Nacional, que reconheceu o número de mortos hoje divulgado, declarou que, após os bombardeamentos israelitas e norte-americanos em junho passado na República Islâmica, "o inimigo concluiu que o mero uso de meios militares não seria suficiente para forçar a nação iraniana à rendição".

Por isso, "mudou de tática e passaram a visar a coesão social, de forma a quebrar a vontade nacional", prosseguiu o conselho, argumentando que os protestos inicialmente pacíficos foram infiltrados por "células de caos organizado", o que diz explicar a violência entre 09 e 17 de janeiro.

Durante os protestos, as autoridades iranianas alegaram que a violência servia o pretexto de uma intervenção militar do Presidente dos Estados Unidos, que ameaçou usar a força se a repressão policial provocasse vítimas entre os manifestantes.

Depois, Donald Trump recuou, com base na informação que disse ter recebido de que a sua ameaça tinha evitado centenas de execuções de manifestantes detidos.

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão dirigiu hoje nas redes sociais a ameaça mais direta contra os Estados Unidos desde que os protestos começaram a diminuir, alertando que Teerão "responderá com tudo o que tiver" em caso de um novo ataque.

As declarações de Abbas Araghchi, que teve o seu convite cancelado para participar esta semana no Fórum Económico Mundial, ocorrem numa fase em que uma frota naval norte-americana se dirige para o Médio Oriente, a par da indicação de movimentos de meios aéreos dos Estados Unidos na região.

Araqchi atribuiu a retirada do convite para comparecer em Davos a "mentiras e pressões políticas" de Israel.

"Há uma verdade fundamental na recente violência no Irão: tivemos de defender o nosso povo dos terroristas armados e dos assassínios ao estilo do Estado Islâmico, abertamente apoiados pela Mossad", afirmou, referindo-se as serviços de informação externas israelitas.

O chefe da diplomacia de Teerão acusou ainda o Fórum Económico Mundial de "fingir uma suposta postura 'moral'", atacando também a sua coerência.

"O atual duplo padrão flagrante apenas demonstra depravação moral e falência intelectual. As pessoas têm o direito de saber a verdade e julgar por si próprias. A vergonha é reservada para aqueles que pensam o contrário", concluiu, juntamente com um vídeo divulgado pelo Governo iraniano sobre os protestos e a presença de indivíduos armados nas manifestações.

O Irão foi abalado por uma nova vaga de protestos entre 28 de dezembro e a passada semana, iniciada em Teerão por comerciantes e setores económicos afetados pelo colapso do rial, a moeda iraniana, e pela elevada inflação, alastrando-se depois a mais de 100 cidades do país.