Entre a bengala e o lápis ao frio no Porto Moniz
Maria da Conceição tem 86 anos e saía da mesa de voto com a serenidade de quem cumpre um ritual antigo. Não falha um acto eleitoral. De bengala na mão, vestida de preto dos pés à cabeça, avançava devagar, mas determinada. Não sabe explicar exactamente o que um Presidente da República pode fazer pelo Porto Moniz, admite-o sem rodeios, mas há algo que sabe com toda a certeza que é a sua consciência, que manda que vá votar.
“Enquanto viver”, diz. E se chegar aos 90 anos, assim continuará. A bengala acompanha-a porque a ciática já não perdoa, mas não a impede de estar presente.
Ali, na Santa do Porto Moniz, o frio não dá tréguas. “Está um frio de rachar”, comenta-se à porta da secção de voto. Às 7 horas da manhã, quando se abriram as urnas, o ambiente era ainda mais agreste. Um frio húmido, cortante, que se infiltra nos ossos e torna cada gesto mais lento. Que o diga Margarida, sentada do outro lado da mesa.
É apenas a segunda vez que integra uma mesa de voto, mas já se move com a segurança de quem percebe a importância daquele papel discreto.
Entre chamadas de eleitores, conferência de cadernos e explicações repetidas, mantém a calma. Não se atrapalha com quem chega surpreendido ao descobrir que havia candidaturas rejeitadas. Explica, esclarece, aponta para o boletim, resolve dúvidas.
Nos momentos mortos, quando a afluência abranda e o silêncio volta a instalar-se na sala, Margarida puxa de uma folha A4 e deixa a caneta correr. Desenha. Pequenos traços, formas soltas, quase como uma forma de aquecer as mãos e o tempo.
Entre a bengala de Maria da Conceição e o lápis de Margarida, o dia eleitoral vai-se fazendo assim no Porto Moniz. Com frio, com pausas, com dúvidas e certezas misturadas. Mas, sobretudo, com a persistência tranquila de quem acredita que, apesar de tudo, ainda vale a pena estar ali.