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Fact Check Madeira

O poder de compra dos madeirenses é o mais afectado pela inflação?

Foto Shutterstock
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A inflação não afecta todos por igual. Embora o Índice de Preços no Consumidor (IPC) seja divulgado a nível nacional, a sua evolução regional revela diferenças significativas no custo de vida e no poder de compra. A comparação entre a Madeira, o Continente e os Açores mostra que os madeirenses enfrentam uma pressão inflacionista mais elevada, sobretudo nas despesas essenciais, com efeitos directos nos rendimentos reais. Mas essa é uma percepção facilmente demonstrada ou há formas de a rebater?

Numa das mais recentes notícias sobre o Índice de Preços no Consumidor, um leitor do DIÁRIO refere que os madeirenses têm um alto poder de compra. Será mesmo assim?

Usando um cabaz de consumo 'realista' - dados retirados das divulgações da DREM e do INE -, que reflecte uma extrapolação das despesas mensais típicas de uma família de um ou dois adultos com rendimentos baixos ou médios, a diferença torna-se clara. Na Madeira, esse cabaz atinge cerca de 1.250 euros mensais, enquanto no Continente ronda os 1.095 euros e nos Açores os 1.150 euros. Em termos anuais, viver 'normalmente' na Madeira custa cerca de 1.860 euros a mais do que no Continente e 1.200 euros a mais do que nos Açores.

A principal explicação está na estrutura das despesas. Na Madeira, a habitação absorve quase metade do rendimento de referência, agravada pela pressão turística e pela escassez de oferta. Energia, água e alimentação também têm um peso superior, reflectindo custos logísticos e menor concorrência. No conjunto, mais de 80% do rendimento mensal é consumido por despesas rígidas e difíceis de reduzir, deixando pouca margem para absorver aumentos de preços.

E qualquer família da cada vez mais reduzida classe média conseguirá tirar isso a limpo, bastando perceber que o rendimento médio tem vindo a aproximar-se do rendimento mínimo, muito por culpa da menor evolução da primeira do que da segunda que, por decreto, tem vindo a crescer consecutivamente nos anos mais recentes.

Quando se aplica a inflação a este cabaz, as desigualdades aprofundam-se. Com uma taxa média recente próxima dos 3,5%, o custo anual do cabaz madeirense aumenta cerca de 525 euros por ano. Nos Açores e no Continente, onde a inflação ronda os 2,3%, o acréscimo fica perto dos 300 euros anuais. A diferença não é meramente estatística: traduz-se numa necessidade adicional de rendimento apenas para manter o mesmo nível de vida.

O impacto nos rendimentos reais é evidente. Considerando um salário mensal de 1.200 euros com um aumento anual de 3%, o ganho bruto anual é de 432 euros. No Continente e nos Açores, esse aumento ainda supera a inflação, resultando num ligeiro ganho real. Na Madeira, porém, o mesmo trabalhador perde cerca de 93 euros de poder de compra por ano, apesar de ter tido um aumento salarial.

O mesmo raciocínio aplica-se às pensões. Como as actualizações são feitas com base no IPC nacional, os pensionistas madeirenses enfrentam uma erosão real do rendimento sempre que a inflação regional supera a média do país. Sendo este um grupo com maior peso de despesas em alimentação, energia e saúde, o impacto é ainda mais sentido no quotidiano.

Esta realidade ajuda a explicar a percepção generalizada de que "a vida está mais cara" na Madeira e reforça o debate sobre a adequação de políticas salariais e sociais uniformes num país com realidades regionais tão distintas. Quando o custo de vida cresce mais depressa do que os rendimentos, o resultado é um empobrecimento gradual, muitas vezes invisível nas estatísticas, mas bem presente no orçamento das famílias.

Mas não podíamos fazer este fact-check sem olhar para o impacto da inflação nas famílias com menores a seu cargo. Na Madeira, a inflação continua a pressionar os orçamentos familiares. Isso é um facto ainda mais evidente quando há crianças/jovens. Em 2025, a variação média dos preços ao consumidor na Região Autónoma da Madeira, que foi de 3,5%, acima dos 3,3% de 2024, com serviços e habitação a liderarem os aumentos e restaurantes e hotéis a subir cerca de 10%, que como já vimos são factores que influenciam fortemente o custo de vida local, a responsabilidade de ter menores a seu cargo é ainda mais pesado.

Para uma família com dois adultos com salários médios e um ou dois filhos menores, este cenário traduz-se num custo de inflação mais elevado do que para um casal sem filhos. As despesas com alimentação, energia, creches, educação, saúde e actividades extra-curriculares acumulam-se, reduzindo o rendimento disponível e limitando a capacidade de poupança e de resposta a imprevistos.

Ou seja, fica claro que, em contraste com dois adultos sem filhos, que conseguem ajustar mais facilmente os seus consumos e adiar algumas compras, o que amortiza o efeito inflacionário, na Madeira, onde muitos bens essenciais têm preços superiores à média nacional devido à já referida insularidade e salários médios que ainda não acompanham o aumento dos preços, ambos os tipos de agregado familiar sentem a pressão nos seus orçamentos, mas as famílias com filhos suportam um peso relativo maior.

Quando a inflação regional corrói salários e pensões, parece ser evidente que viver na Madeira custa mais. Foi esta a premissa para tentarmos perceber se estamos a viver numa região acima das nossas possibilidades. Dado o exposto, a conclusão é óbvia, os madeirenses, em comparação com os continentais, sentem na carteira o peso da inflação insular, agravado pelas condicionantes socio-económicas, com o turismo como principal 'foco perturbador', algo que ainda não chegou tão fortemente aos Açores.