Passados quase 50 anos, o feriado que se volta a celebrar em Itália

Em 1977, em plena crise económica, o Estado italiano tomou uma decisão simbólica e polémica: retirar do calendário laboral o feriado de 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, padroeiro da Itália. A medida, integrada num pacote de austeridade, pretendia reduzir custos e aumentar a produtividade. Quase cinquenta anos depois, e no ano em que se assinalam os 800 anos da morte de São Francisco, a data volta a ganhar centralidade.

A supressão do feriado ocorreu sob um governo liderado por Giulio Andreotti, num contexto de inflação elevada, crise energética e forte instabilidade política. A lógica foi simples: menos feriados, mais dias de trabalho. O 4 de outubro, apesar do seu peso histórico e simbólico, foi considerado dispensável enquanto feriado civil nacional.

A decisão, porém, nunca apagou a data da vida pública italiana. Desde então, o dia continuou a ser celebrado oficialmente, embora sem suspensão generalizada do trabalho. Todos os anos, o Presidente da República participa em cerimónias em Assis, e várias cidades — sobretudo na Úmbria — mantiveram o 4 de outubro como feriado local ou dia cívico-religioso. Na prática, o feriado saiu da lei laboral, mas permaneceu na memória coletiva.

Este ano, porém, há um motivo adicional para o regresso da celebração ao centro da agenda nacional. Em 2026 cumprem-se 800 anos da morte de São Francisco de Assis (1226–2026), uma efeméride de grande relevância histórica, cultural e espiritual, que está a ser assinalada em toda a Itália com iniciativas religiosas, culturais e institucionais. É neste contexto que o 4 de outubro volta a assumir um papel especial, reacendendo o debate sobre o seu estatuto e significado.

Mais do que uma simples evocação religiosa, a celebração dos 800 anos tem sido apresentada como um momento de reflexão nacional, num país confrontado com crises ambientais, desigualdades sociais e tensões internacionais — temas intimamente associados à herança franciscana. Para muitos, a revalorização da data funciona como um gesto simbólico de reencontro com valores considerados fundadores da identidade italiana.

O debate sobre o feriado vai, assim, além da questão laboral. Confronta duas lógicas distintas: a que, em 1977, privilegiou a urgência económica, e a que hoje questiona se alguns símbolos nacionais podem ser tratados apenas como variáveis de produtividade.

Independentemente de voltar ou não a ser um feriado civil pleno, o 4 de outubro confirma algo essencial: há datas que podem ser abolidas por decreto, mas não eliminadas da história. Passados quase 50 anos — e 800 sobre a morte da figura que lhe deu origem — o feriado suprimido em nome da austeridade volta a ser celebrado, discutido e, sobretudo, lembrado.

Paulo Freitas do Amaral