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É primitiva e infantil, no entanto, é a coisa mais preciosa que temos!

Permitam-me (...) sem fugir às polémicas atuais, opinar sobre seis temas científicos que se salientaram em 2023

A frase é de Albert Einstein, referindo-se à ciência, na qual as descobertas não param e continuamente condicionam a nossa forma de pensar, de viver, de trabalhar, de nos relacionarmos. Desde a compreensão do Universo numa escala maior, à descoberta da vida celular, dos desígnios do átomo e das forças na escala menor, ela define e molda a nossa civilização. Ela permite-nos a diferenciação civilizacional, o que nos permite abraçar outros desígnios como o debate sobre questões de filosofia ou religião.

Perguntarão alguns, fará sentido refletir sobre o valor da ciência em 2023? Se para alguns é pacífico, os movimentos de negacionismo tão em voga hoje, desde aqueles claramente políticos como o “MAGA” americano, aos mais abstratos e alucinados como os “terraplanistas”, certamente justificam que sim.

Permitam-me escolher, partilhar convosco e, sem fugir às polémicas atuais, opinar sobre seis temas científicos que se salientaram em 2023 e que, no meu entender, marcarão a agenda científica no futuro próximo.

2023 foi indiscutivelmente um ano de ruptura na Inteligência Artificial. No ano em que encontrámos formas mais avançadas de processar dados, a IA encontrou utilidade em quase tudo, desde a Medicina e biologia, à economia, à música, à poesia e às artes em geral. Desde prever a migração das aves, materializar pensamentos a partir da análise da função cerebral de uma pessoa até à capacidade de identificar potenciais clientes. A necessidade de regulamentação trouxe a atenção da política e até dos tribunais. Para o bem, ou mal, veio para ficar.

Os supercomputadores chegaram com um quantum de possibilidades, com uma capacidade melhorada de cálculo de várias ordens de grandeza. Uma nova e inesperada possibilidade é ajudar a criar novos materiais, muito mais leves, resistentes e duradouros, e eventualmente supercondutores mais eficazes, como inúmeras aplicações na indústria, a meteorologia, biologia e na medicina entre outras. O desafio será dispô-los para uso generalizado quando forem mais acessíveis.

A fusão nuclear como fonte de energia. É um tipo de energia nuclear muito diferente do processo de fissão nuclear que é usado até agora. A energia é obtida a partir da união de átomos, enquanto na fissão a energia é gerada pela divisão de átomos. É assim uma imitação do que o Sol faz para gerar energia. Este novo processo não gera o lixo radioativo produzido pelos reatores de fissão, o que é um dos principais problemas do uso de energia nuclear atualmente. As primeiras experiências com sucesso já aconteceram, mas o futuro dirá se é a ferramenta que nos permitirá combater a crise energética na luta contra o aquecimento global.

A biologia sintética é algo novo na qual se criam sistemas biológicos específicos, por exemplo com microrganismos adequados, para sintetizar um conjunto de biomoléculas e materiais, como sejam combustíveis, medicamentos, tecidos ou comidas. Tal abre um conjunto de portas muito variadas na economia e no conhecimento. É a bio produção, de polímeros e não só, na qual se criam peles sem usar vacas, seda sem o respetivo animal, numa perspetiva mais sustentável e alternativa às fontes tradicionais.

Os herbicidas e fertilizantes estão no centro do debate ambiental. Ao mesmo tempo que são produzidos novos produtos fertilizantes mais amigos do ambiente e, ao mesmo tempo, mais seguros para os humanos, parece faltar coragem política em implementar regulamentação que estimule essa transformação. A opção existe, é mais segura e tem uma menor pegada ecológica. Ao mesmo tempo, cresce a evidência estatística e biológica que o uso de herbicidas e fertilizantes mais nefastos para a vida animal associa-se com a diminuição do número de espécies e de efetivos, nomeadamente de pássaros no espaço comunitário. Fica mais um desafio para lidar na agricultura, no ambiente e na saúde.

Se o telescópio Hubble era uma janela para o cosmos, o novo James Webb arrisca-se a ser uma enorme varanda pela quantidade de informação que revela e promete revelar nos próximos anos. Os modelos existentes até agora sobre a criação do universo, desde a formação de novas estrelas, planetas e galáxias, às diferentes formas de energia existente e à dinâmica dos diferentes fenómenos, todos estão a ser desafiados e modificados a cada nova imagem que este telescópio nos envia. E 2023 tem sido um ano particularmente produtivo nesse sentido.

Outros temas mereceram nota, mas fico por estes seis. São suficientes para vincar que, apesar de às vezes parecer primitiva, até infantil e muitas vezes altamente criticável, a ciência é, no entanto, das coisas mais preciosas que temos ao nosso dispor como civilização.