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Um último “adeus”

No ano que está a terminar dissemos um último “adeus” a vários artistas que não só marcaram as suas respetivas áreas, como também, em muitos casos, as nossas vidas, sobretudo os jovens da minha altura, e a nossa apreciação das artes.

Referir-me-ei aqui a alguns, não necessariamente por serem nomes mundialmente conhecidos, mas sim porque as suas prestações artísticas de alguma maneira me tocaram e enriqueceram a minha vida, tal como a minha perceção de talento, expressividade artística e comunicação emocional.

O ator estadunidense Sidney Poitier (7 de janeiro, 94 anos) foi o protagonista do filme “To Sir, with love” (O ódio que gerou o amor) de 1967. Foi o primeiro filme que fui ver com a turma da minha escola primária e o meu primeiro contacto com os tópicos das iniquidades sociais e raciais, sobre as quais, na altura, não tinha o mínimo conceito. A intensidade da sua representação ficou comigo para o resto da minha vida.

William Hurt, mais um ator do mesmo país (13 de março, 71 anos), participou em quase 70 filmes dos mais variados géneros, e ganhou um Óscar, além de uma dezena de outros prémios internacionais.

Curiosamente, Ray Liotta e Paul Sorvino, dois dos principais atores do filme de culto “Goodfellas” (Tudo bons rapazes), faleceram dentro de dois meses: 26 de maio (67 anos), e 25 de julho (83 anos), respetivamente.

Angela Lansbury (11 de outubro, 96 anos), foi a estrela da famosa série televisiva “Murder, she wrote” (Crime, disse ela) em 12 temporadas e 263 episódios (!). Mas a primeira vez que a vi foi na versão original do filme “The picture of Dorian Gray” (O retrato de Dorian Gray), de 1947, que para mim é ainda o filme mais aterrorizador da minha infância e o qual, julgo, continua a o ser mais do que qualquer uma das outras 9 versões que se seguiram.

Recentemente (14 de outubro, 72 anos), deixou-nos também o ator Robbie Coltrane, o inimitável Hagrid dos filmes de “Harry Potter”. A sua representação do personagem aqueceu os corações de muitos miúdos e graúdos.

Há apenas três semanas atrás (5 de dezembro, 71 anos), faleceu Kirstie Alley, a estrela da sitcom “Cheers” (Aquele bar), que marcou indelevelmente a geração que a seguiu na televisão, de 1987 a 1993.

Entre os cantores, pereceu a 30 de abril, com 76 anos, Naomi Judd, uma cantora “country” que juntamente com a filha Wynonna fez parte do conhecido duo “The Judds”, tendo arrecadado cinco Grammys.

Numa outra coincidência, duas atrizes e cantoras de filmes icónicos que combinavam canto e dança morreram dentro de poucos meses. Olivia Newton-John (8 de agosto, 73 anos), da fama do “Grease” (Nos tempos da brilhantina, 1978) e Irene Cara (25 de novembro, 63 anos), autora e intérprete da canção “Flashdance…What a Feeling” do filme “Flashdance” (1983) foram, cada uma da sua maneira, imprescindíveis para o êxito destes filmes, cujas personagens foram objetos de ânsias amorosas, inveja e identificação de toda uma geração de adolescentes. Ademais, a coautoria da canção valeu a Cara um Óscar.

Finalmente, “a filha dum mineiro”, como foi conhecida a cantora Loretta Lyn, faleceu a 4 de outubro, com 90 anos. Também uma cantora de “country”, ao longo das seis décadas da sua carreira, recebeu 3 Grammys. A sua canção, com o título que lhe valeu o seu cognome, também deu origem ao filme biográfico de 1980. É um testemunho das suas origens humildes o facto de ter tido o primeiro dos seus seis filhos com apenas 15 anos de idade. Contudo, a sua carreira foi de uma elevação ímpar e foi coroada com a condecoração da Medalha Presidencial da Liberdade, atribuída por Barack Obama em 2013.

Entre as centenas de artistas que nos deixaram este ano e que iluminaram as nossas vidas, eis alguns que o fizeram com relevância particular para mim próprio. Que a sua herança continue a inspirar as vidas das gerações vindouras! Desejo a todos os leitores um Bom Natal e feliz Ano Novo!