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Alpinista portuguesa lidera expedição só de mulheres ao Nepal

Cume Chulu East Peak
Cume Chulu East Peak, Foto Shutterstock

Pela primeira vez em Portugal, vai ser organizada uma expedição de alpinismo exclusivamente feminina, ao Nepal, com o objetivo de "quebrar preconceitos" e de "chamar a atenção de mais mulheres para a modalidade", segundo a guia.

A expedição, prevista para outubro, aos cumes Chulu Far East (6.059 metros) e Chulu East Peak (6.584 metros), na região do Annapurna, vai ser liderada por Paula Ferreira, de 54 anos, alpinista há 30, com experiência em várias montanhas.

"Se a mulher já se sentisse em pé de igualdade com o homem, nada disto seria necessário, mas ainda não sentimos essa igualdade em muitas situações, nomeadamente na tomada de decisão. Se estivermos numa equipa mista, por muito que afirmemos a nossa posição, a verdade é que vai haver sempre situações em que deixamos que seja o homem a tomar decisões", salienta a alpinista, em declarações à agência Lusa.

O anúncio da expedição de 20 dias vai ser feito simbolicamente em 08 de março, Dia da Mulher, como sinal "de empoderamento" feminino, porque "as mulheres estão aptas a fazer montanhas", realça Paula Ferreira, engenheira do ambiente.

Se em vários países são comuns as expedições apenas para mulheres, e há muitas alpinistas, em Portugal as referências são escassas, considera Paula Ferreira. Além de Daniela Teixeira ou Maria da Conceição, não são muitas as mulheres a desafiarem a alta montanha.

A líder da expedição atribui a pouca representação de mulheres na modalidade "ao preconceito" que se vai perpetuando e à forma "como a sociedade educa".

"Há ainda algum preconceito quanto à mulher na montanha. Há ainda muitas tarefas que acham que a mulher não deve ter, que não deve correr riscos, porque tem uma responsabilidade, tem filhos", lamenta a alpinista e mãe, habituada a contrariar esses estereótipos.

Paula Ferreira dá o exemplo de que se lembra quando começou no alpinismo, de Alison Hargreaves, a primeira britânica a escalar, sem ajuda de oxigénio ou de carregadores, o Evereste, ponto mais alto do mundo, e que morreu em 1995, a descer o K2.

"Foi uma heroína quando correu tudo bem e foi crucificada quando morreu, porque correu riscos e deixou dois filhos pequenos. Quantos homens morrem na montanha, o que é uma pena, mas não são crucificados, no sentido de arriscarem, quando deviam estar em casa a tomar conta dos filhos?", compara a alpinista portuguesa.

Até hoje, as mentalidades evoluíram, considera Paula Ferreira, porque os principais cumes já foram desbravados por mulheres e, no caso de um fracasso, "não faz sentido dizer que não é uma atividade para mulheres".

Subir montanhas não implica força. É um equilíbrio "entre preparação física e cabeça", explica a líder da expedição à zona pouco explorada do Nepal.

Paula Ferreira está confiante na adesão à iniciativa, para quatro participantes, e afirma notar o entusiasmo de quem "não quer ir a reboque" de ninguém. A alpinista sente "a vontade de se retomar a aventura" e está otimista que a pandemia não obrigue à mudança de planos.

Sem sair do país, tem feito preparação, com a mochila carregada às costas, na Serra da Estrela, onde "há percursos longos com cota e se faz trabalho cardio". Até à data, as participantes terão de fazer um curso de expedição, com módulos sobre autonomia, utilização de material, alimentação, estar em alta montanha, técnicas de resgate e de ascensão, mas enfatiza que ninguém treina para uma atividade destas, apenas se intensifica o treino, porque é necessário já ter esses hábitos.

A expedição é organizada pela empresa Espaços Naturais, para "encorajar as mulheres que têm sede de aventura", segundo o proprietário, Pedro Guedes.

"Esta é também uma forma de empoderamento das mulheres, que estão perfeitamente aptas a quebrar barreiras numa área historicamente dominada por homens", frisa Pedro Guedes, que informa que cada alpinista pagará entre 2.000 e 2.500 euros.

O promotor da iniciativa espera "que o alpinismo se conjugue mais no feminino" e que as mulheres na montanha "tenham maior visibilidade em Portugal".