Homenagem a António Founier
“....E aqueles que por obras valerosas , Se vão da lei da morte libertando : “
Os Lusiadas --Camões (Canto Primeiro )
António Fournier foi um académico investigador, um tradutor, um ensaísta, crítico literário, autor e, acima de tudo um estudioso metódico. Era igualmente dotado de uma alma romântica. (Wikipedia).
Viveu desde 1996 em Itália,em que se especializou em Linguística Textual e tradução literária na Universidade de Pisa(2000) e,mais tarde em 2007 ,doutorou-se em Literatura Portuguesa,com a tese “ A bulimía do Belo “. Já anteriormente, na Universidade de Bari(2006 ), ensinara Língua e tradução portuguesa e brasileira ,assim como em outras universidades: Pisa, Milão e Escola Superior de Línguas Modernas para tradutores e Interpetres de Trieste.
Nas suas visitas periódicas à Madeira, sua terra natal, promoveu um encontro de Literaturas com a BD e, na última das Feiras do Livro no Funchal, lançou o livro “O Maquinista”.
António Fournier organizou na sua Universidade de Turim o dia dedicado ao grande poeta madeirense Herberto Helder -O Jogo. E, ainda nessa mesma Universidade organizou um Congresso Internacional, com professores de outras universidades, incluindo a Universidade Clássica de Lisboa.
Tinha em mãos, já preparado, o prefácio para uma leitura do próximo livro de João Carlos Abreu.
Em 2014 lançou em Itália o “Bestiário Lusitano”, que é uma antologia de contos de autores portugueses, com seleção e prefácio seus.
Deixou-nos neste último Natal, seu dia de nascimento e falecimento.
Tinha por ele grande estima e consideração desde que o conheci em 2001, 1º Centenário do nascimento de meu pai, Horácio Bento de Gouveia.
Sempre que ele vinha de férias, normalmente encontravamo-nos no Arquivo Regional, local predilecto para a quando dos meus trabalhos de investigação e pesquisa da obra bentiana.
Conversávamos muito sobre as suas descobertas e as minhas, da “escrita bentiana”, que originou muitas teses de Mestrado e Doutoramento, não apenas na Universidade da Madeira, mas também nos Estados Unidos em várias universidades e, em Itália. Recordo que nos anos 60, um professor italiano através de um outro amigo João Carlos Abreu esteve na Madeira e interessou-se muito pelas obras de meu pai. Eu também conheci Gian. Paolo..
O Dr.António Fournier era uma pessoa de fino trato, alegre, sem vaidades e, bom conversador. Houve um ano em que participou no Concurso Literário Horácio Bento de Gouveia, com o conto delicioso, bem escrito e aquela sua maneira elegante de escrever, intitulado “A barreira coralina”. Ia acompanhado pela senhora sua mãe e o filho, ainda criança, o André.
Foi esse filho que o acompanhou em Itália, frequentando já a Universidade e, depois na Madeira o acompanhou na longa e dolorosa doença.
Nas Comemorações dos 5oo Anos da elevação do Funchal a cidade (2008), a colaboração de António Fournier deu origem ao livro “12 meses no Funchal “.
A ele devo a gentileza de apresentar , em S. Vicente, Câmara Municipal, o meu 5º volume dos “Escritos”, com aquela fluência que lhe era peculiar. Depois da sessão, meu marido e eu convidámo-lo a visitar a Casa-Museu Dr.Horácio Bento, na Ponta Delgada.
Falou-me do seu último livro ,um exemplar fantástico “ HORA FECUNDA”, também por ele organizado em Itália, uma autêntica e rica obra literária com 900 páginas, que congrega a Literarura Hispânica, Linguística portuguesa e,muito mais. Mais tarde trouxe-me um exemplar de Itália datado de 2015.
Tenho pois dele mais esta recordação, assim como a correspondência que mantivemos no longo ano da sua doença, em que ele já tinha dificuldade em exprimir-se.
No aniversário dos 85 anos do meu marido, organizado pela minha filha no Porto, na Fundação do nosso amigo Escultor José Rodrigues, o António e a Gaia fizeram-nos a surpresa de aparecer. Era Julho estava um dia óptimo e tivemos com isso uma grande alegria. No dia seguinte vieram à nossa casa de Santo Tirso e passámos uma tarde encantadora. Depois em 2016, ano em que o meu marido faleceu, o António escreveu-me para me comunicar que estava a leccionar Literatura portuguesa e, a obra de meu pai era aí estudada, sendo ele o orientador, pelo que me “enviou” a Portugal, Santo Tirso, um seu aluno Alessiosalis. O jovem estava a preparar a licenciatura com o conto “Ana Maria “ e queria conhecer-me para melhor apresentar e defender no final a sua tese. Alessio ficou no Porto, mas veio durante vários dias conversar e tirar apontamentos sobre a vivência de meu pai, ver toda a obra e fotos do escritor . Mais tarde enviou-me o seu livro e fotos com a família ; continuou a estudar a obra guiado pelas mãos do Mestre, professor A.Fournier, de quem muito gostava. Neste ano findo concluiu o Mestrado, embora mais sozinho sem a presença do seu professor, baseado novamente na “escrita bentiana”, o romance “Àguas Mansas”. Era ele quem me dava notícias do professor.
António Fournier era um promissor, que tinha ainda muito para dar, autor como acima apontei, de vários trabalhos e organizações, mas a vida é cruel e,a cultura ficou mais pobre
É esta a minha homenagem que dedico também ao André.
Maria de Fátima Gouveia Soares