Até Sempre Campeão

Era um jovem adolescente, nado e criado na Rua da Pena e todas as noites, era despertado pelo roncar dum motor, altamente trabalhado, duma viatura, que fazia vibrar as vidraças das janelas e tinha a confirmação e a certeza de que era o “Janica”, o mais popular piloto de Ralis da Madeira, na altura, que vivendo no Beco do Cascalho, era obrigado a fazer aquele “troço” todos os dias.

Entusiasta desde jovem, pelos automóveis e pelos ralis, e apesar da diferença de idades, enorme para a altura, por razões familiares e de vizinhança, para além do teu carácter jovial e intergeracional, passamos a conviver mais e eras o nosso ídolo como piloto de ralis, como modelo de referência de bem conduzir. Não raras vezes, nas nossas conversas, de jovens aprendizes de condutores, referíamos “o Janica faz assim”, “vê como ele faz esta curva”, para exemplificarmos como deveríamos fazer.

Não restam dúvidas que foste o piloto mais rápido da tua geração, juntamente com o Zeca Cunha.

Haviam outros, mas nenhum era como o Janica ou o Zeca. Eram os nossos melhores pilotos, nos que depositávamos a esperança de serem capazes de se bater com os consagrados pilotos que vinham até à Madeira.

Mas tu, meu caro Janica, eras o mais completo, o mais virtuoso e também o mais amigo da mecânica das tuas viaturas. Por isso, o mais capaz de obter bons resultados e além da vitória na “Volta à Ilha” tens um vasto palmarés, pois foste o vencedor de muitos ralis e rampas, na Madeira. Podias não ter o carro mais potente, mas eras o melhor piloto. E “só” isso fazia a “grande diferença”. Se houvesse, na altura, Campeonato Regional de Automobilismo, terias sido várias vezes, o seu vencedor. Eras o “nosso” Campeão da Madeira de Ralis.

Uma década depois de venceres a “Volta à Ilha à Madeira” em 1975, com o Miguel Sousa como co-piloto, outro vizinho e também jovem amigo da Pena, fui nomeado “Director do Rali Vinho da Madeira” e na altura, não existindo viaturas de abertura dos Ralis, competia ao Director da Prova, realizar essa tarefa e ir na frente dos concorrentes, a verificar se tudo estava conforme e em segurança, foste o “meu piloto” de eleição, aquele que me acompanhou sempre e com quem “venci” muitos Ralis Vinho Madeira, já no topo dos Ralis do Campeonato da Europa.

A viatura era normal, alugada no rent-a-car, e mesmo assim, fazias as delícias - quase sempre a descer porque não havia “cavalos” para dar espectáculo a subir – dos muitos entusiastas que estavam nas estradas e que te aclamavam, em cada passagem, fascinados com as tuas peripécias.

Recordo que adoravas fazer a descida da Encumeada para a Serra D’Agua. Quantas vezes os meus papéis voavam, o rádio silenciava, pois era impossível ver ou falar, nessas alturas.

Ficava tudo numa desordem, mas sabia que aquele era o teu momento de condução favorito.

Muitas “estórias” tínhamos para contar, dessas viagens a acelerar ao longo das sinuosas estradas da nossa Ilha.

Mas tinhas o teu lado ponderado e calmo, quando me pedias “Zé Paulo, neste troço vamos sair mais cedo. É muito grande e estas pastilhas de travões, já estão a dar as últimas e não quero ter sustos” ou na ligação entre o Paúl da Serra e a Calheta, em que dizias “vamos travar com a caixa, para não chegarmos lá baixo sem travões”.

Foste assim nos ralis como na vida. Aceleraste muito e andaste muito depressa e sempre na frente.

A tua asma fez com que optasses ir viver para as “Carreiras” e com alguns intervalos, passavas temporadas na bela Ilha do Porto Santo.

As dificuldades da vida e a tua saúde obrigaram a que começasses a deixar de “acelerar” e a ter atenção ao “desgaste dos travões” e a ter cuidado com a “caixa”.

Por essas razões, começaste a te isolar da convivência dos amigos. Não sentias a força e a energia do “Janica” e teimoso como eras, preferiste ser sempre tu a conduzir a tua vida.

Falámos muitas vezes, a maioria pelo telefone. Acompanhei as tuas alegrias e das dificuldades da vida, que não foram poucas, nos últimos anos.

Voltaste a te recompor, a família a se unir e a teres o carinho e a amizade da Clarinha, do Ricardo, da Sofia e uma renovada alegria com os teus netos.

Relembro, nessa fase, a tua satisfação e orgulho, quando assistias aos jogos de futebol de praia, com as notáveis prestações do teu muito jovem neto, João. Entrava contigo dizendo que ele jogava melhor futebol que o avô guiava. Rias e de pronto respondias “não tenho dúvidas”.

Nós, os que tivemos a felicidade de te ver conduzir e o prazer de conviver contigo, “não temos dúvidas” que foste uma referência no automobilismo da Madeira, um “Ás do Volante”.

A vida é assim. Rápida mesmo sem acelerar. E infelizmente, ainda hoje, há doenças impossíveis de travar.

Fica a nossa fé e a certeza que descansas em paz, amigo Janica.

Foste e serás sempre o nosso “Campeão”!