Filhos e enteados

Prezados senhores governantes, aceitem o repto lançado pelo presidente do Nacional. Que se faça, de facto, um estudo (conclusivo) sobre o Deve e o Haver dos apoios financeiros ao futebol profissional... Sem receios de vaias em estádios

09 Mai 2018 / 02:00 H.

Na euforia da vitória do Nacional, trambolharam palavras de orgulho e de satisfação. Jogadores e equipa técnica foram recebidos em apoteose. O povo adora jogos. O povo gosta de vitórias e dos “heróis” que nos fazem esquecer as amarguras do quotidiano. Os gregos sabiam. Os romanos também.

Os 90 minutos de jogo provocam-nos sensações impressionantes que tanto podem ir da raiva e da desolação, até a um verdadeiro estado de exaltação. Sentimentos que ao contrário do que muitos dizem, têm um preço. Eu, cidadã, também tenho contribuído para esse valor. Ao longo destas décadas de Autonomia, temos dispensado largos milhões contos (depois vieram os euros) para apoiar o Desporto. Profissional e amador.

Em todos os concelhos surgiram campos, piscinas, pavilhões (muitos deles estão hoje com graves problemas de manutenção), movimentaram-se milhares de jovens para as práticas desportivas. Faz bem à saúde, os miúdos ficam entretidos em vez de andarem nas drogas (uma das justificações), os pais agradecem, dá votos e, mais tarde ou mais cedo, pode despontar mais um Cristiano Ronaldo. Nunca se sabe...

Também ao longo dos anos, os apoios financeiros foram contestados. Pegar no dinheiro dos contribuintes para financiar áreas não prioritárias dá sempre azo a contestações. Resolveu-se o problema ao mostrar que, afinal, o Desporto é uma área prioritária. Assim, multiplicaram-se as verbas, surgiram mais clubes e modalidades, esticou-se aqui e ali para que chegasse para todos, quando esses todos vão buscar sempre ao mesmo sítio. Amadores ou profissionais cresceram exponencialmente, protegidos pelo poder governamental, o mesmo que protege e cede tantas outras benesses e apoios a outras áreas. Depois vem o efeito bola de neve. Criaram-se as condições para o aparecimento de vários clubes, associações e modalidades. A competição faz-nos querer mais e melhor. O crescimento é inevitável e com ele surgem os gastos que já não são os mesmos. Há que pedir também mais e melhor. Pedir ao mesmo.

E foi Rui Alves, o inenarrável presidente do C.D. Nacional, quem deu o mote: «Tenho a certeza de que brevemente teremos uma grande reflexão sobre o impacto que o futebol profissional tem na economia da Região para desmontar de uma vez por todas aqueles que julgam que isto está a ser suportado pelos contribuintes. Não é verdade. O futebol profissional dá mais do que recebe e vale a pena pensar um pouco mais».

Mas antes desta grande tirada, o nacionalista reconheceu: «Naturalmente que na Região só é possível estar ao mais alto nível pela opção política do Governo Regional de financiar o desporto profissional e naturalmente que os sucessivos governos do PSD fizeram desta opção política um elemento fundamental do crescimento do desporto na RAM».

Portanto, só há futebol profissional ao mais alto nível graças aos apoios governamentais, mas isso não quer dizer que «isto está a ser suportado pelos contribuintes». Bem... descubram as diferenças...

No meio da euforia e do orgulho clubístico, o presidente do Governo Regional anunciou um reforço nas verbas aos clubes de futebol. O ti Carlos, de 82 anos, estuporou. Também ele precisava de um reforço na pensão de sobrevivência. A Joana, de 18 anos, passou-se. Nas vésperas de se mudar para outro sítio do país, também ela preferia ficar na sua ilha a estudar, mas a universidade local não tem a oferta de cursos adequada às suas vontades e aptidões. O reitor já pediu apoio, mas não se sabe se esse pedido vai constar ou não da tabela das prioridades governativas.

Até a Idalina ficou incomodada e começou a questionar o seu gesto de boa-vontade ao oferecer, ao centro de saúde da sua área de residência, um punhado de compressas e de pensos que haviam sobrado do seu tratamento.

A Cátia e a Carolina, duas mães extremosas, ficaram escandalizadas. Todos os meses, têm de desembolsar uns quantos euros para que os filhos possam treinar. Pagam tudo, desde o transporte, seguros, exames médicos, até ao equipamento.

Mas antes deste anúncio, o vice-presidente revelava a intenção de adiantar dinheiro aos clubes para duas épocas, minimizando assim o tempo de espera que as burocracias obrigam. As mesmas burocracias incómodas e lentas que provocaram atrasos no recebimento das pensões de reforma da dona Maria e do senhor Anselmo. Queixaram-se, fizeram marcação cerrada à porta da Segurança Social, mas não tiveram outro remédio senão esperar... Ninguém lhes adiantou dinheiro...

Prezados senhores governantes, aceitem o repto lançado pelo presidente do Nacional. Que se faça, de facto, um estudo (conclusivo) sobre o Deve e o Haver dos apoios financeiros ao futebol profissional, ao Desporto em geral e até mesmo a outras áreas que dependem única e exclusivamente dos subsídios governamentais. Sem receios de vaias em estádios. Quais foram as contrapartidas reais para nós, contribuintes, dos milhões atribuídos? Que impactos reais tem o futebol profissional na economia madeirense? E que exemplos temos por essa Europa fora sobre esta matéria?

Para além das variadas emoções, o que temos ganho, ao longo dos anos, com a canalização de verbas para essa área em detrimento de outras?

O bolo é sempre o mesmo. As fatias, umas maiores, outras mais pequenas, são distribuídas por entre filhos e enteados.

Sónia Silva Franco