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UEFA, AFC e Concacaf unem-se contra Infantino e exigem investigação independente à crise na FIFA

Confederações acusam liderança da FIFA de quebrar a confiança do futebol mundial após tentativa de vender participação nos direitos comerciais do Mundial

Foto Photos active / Shutterstock.com
Foto Photos active / Shutterstock.com

A crise na liderança da FIFA ganhou uma nova dimensão esta segunda-feira, com UEFA, AFC e Concacaf a unirem-se numa carta aberta dirigida à "família do futebol", na qual acusam a liderança da organização, sob a presidência de Gianni Infantino, de ter quebrado a confiança das confederações e das associações nacionais.

A carta é assinada pelos presidentes das três confederações — Aleksander Čeferin (UEFA), Salman bin Ibrahim Al Khalifa (AFC) e Victor Montagliani (Concacaf) — e pelos respectivos secretários-gerais, Theodore Theodoridis, Datuk Seri Windsor John e Philippe Moggio.

A iniciativa surge na sequência da polémica em torno da proposta da FIFA para vender a investidores privados uma participação de 20% nos direitos comerciais do Campeonato do Mundo, operação que poderia gerar cerca de 4,2 mil milhões de dólares. A proposta acabou por ser abandonada pela FIFA perante a forte oposição que provocou.

Na carta, as três confederações rejeitam a explicação apresentada pela FIFA para o episódio. Segundo as organizações, uma recente comunicação enviada pela FIFA aos vice-presidentes e às 211 associações-membro reconheceu que foram cometidos erros no processo, mas classificou-os como uma "falha de comunicação".

Para UEFA, AFC e Concacaf, o problema foi mais profundo.

As três entidades consideram que houve uma proposta avançada "num calendário comprimido", sem uma consulta significativa às associações-membro e com pressão para cumprir um prazo antes de estas poderem analisar devidamente os seus termos. Na sua leitura, não se tratou de um simples erro processual, mas de uma falha de julgamento e de governação.

A carta é particularmente dura ao considerar que a própria tentativa de comercializar uma participação nos direitos do Campeonato do Mundo constituiu uma quebra de confiança nas instituições que integram a FIFA. "Não foi apenas uma falha de comunicação", sustentam as confederações, defendendo que a questão deve ser encarada como uma falha de julgamento por parte da liderança da organização.

Um dos principais pedidos apresentados na carta diz respeito à investigação aos acontecimentos. A FIFA comprometeu-se a apresentar um relatório ao Conselho da organização sobre o processo que levou à proposta de comercialização dos direitos. UEFA, AFC e Concacaf consideram, porém, que a investigação não pode ser conduzida pela própria FIFA.

As três confederações defendem que deve ser constituída uma entidade independente, sem participação da administração, dos funcionários da FIFA ou de qualquer outro interveniente directamente envolvido no futebol. Na carta é também pedido que todos os documentos e registos relacionados com o processo sejam preservados.

Outro dos pontos levantados pelas confederações diz respeito a uma reunião da liderança da FIFA realizada em Marrocos.

Segundo a carta, a própria FIFA confirmou que apenas um dirigente eleito esteve presente nesse encontro. Nenhum membro do Conselho da FIFA ou associação-membro foi convidado a participar. Estiveram presentes elementos do comité de gestão constituído por altos funcionários da própria FIFA.

UEFA, AFC e Concacaf consideram que a realização de uma reunião deste tipo fora de Zurique, com apenas alguns elementos do comité de gestão, reforça as preocupações que já tinham manifestado sobre a forma como a organização está a ser conduzida.

Afirmam que este comportamento "reforça" o padrão que conduziu à actual crise e não corresponde à actuação que esperam de quem deve ser "guardião" do futebol mundial.

"O futebol não pertence a um indivíduo"

A mensagem política da carta é clara: as três confederações contestam uma concentração excessiva de poder na liderança da FIFA.

"As lideranças no futebol não são uma posse", defendem, argumentando que dirigir o futebol deve ser entendido como um dever de serviço perante as associações, clubes, jogadores e adeptos.

A carta sublinha ainda que o crescimento do futebol mundial na última década não pode ser atribuído a uma única pessoa. UEFA, AFC e Concacaf recordam que a expansão dos torneios, a atribuição dos Mundiais de 2030 e 2034 e a distribuição de recursos pelas associações foram decisões colectivas. "Não pertence a nenhum indivíduo e a nenhuma instituição", escrevem sobre o futebol.

A contestação ocorre depois de a UEFA e as suas 55 associações nacionais terem rejeitado frontalmente o projecto da FIFA para transferir para investidores privados interesses económicos nos direitos do Mundial e de outras competições.

A UEFA chegou a considerar que o Campeonato do Mundo não poderia ser tratado como um produto de investimento e criticou a forma como uma proposta de tamanha dimensão foi desenvolvida sem consulta adequada às entidades que governam o futebol.

A polémica evoluiu para uma crise política mais ampla. Houve ameaças de boicote a competições da FIFA caso a operação avançasse e chegaram a surgir apelos à saída de Infantino. Ao mesmo tempo, várias federações, incluindo algumas da América Latina e de África, manifestaram apoio ao presidente da FIFA.

Apesar da dureza das críticas, a carta não questiona as decisões colectivas já tomadas sobre a expansão das competições ou a atribuição dos Mundiais de 2030 e 2034.

O foco está na governação, transparência e relação entre a FIFA e as confederações.

"Há silêncio onde deveria existir responsabilização, distância onde deveria existir abertura", afirmam UEFA, AFC e Concacaf.

As três confederações terminam apelando à unidade do futebol mundial e a uma liderança que "sirva o futebol" em vez de procurar "comandá-lo".

A publicação da carta representa, assim, um dos mais fortes sinais públicos de divisão na cúpula do futebol mundial desde que Gianni Infantino assumiu a presidência da FIFA. A proposta de venda de uma participação nos direitos comerciais do Mundial foi retirada, mas a crise de confiança entre a FIFA e algumas das principais confederações permanece aberta.

Leia a carta na íntegra (tradução automática do Google)

Carta aberta à família do futebol

"Carta conjunta da AFC, CONCACAF e UEFA

Querida Família do Futebol,

O futebol é a maior paixão compartilhada do mundo. Não pertence a nenhum indivíduo nem a nenhuma instituição.

Pertence aos jogadores, aos torcedores, aos clubes, às Associações Membro e a todas as instituições encarregadas de salvaguardar o seu futuro.

É nesse espírito, como confederações representando seus membros, que nos manifestamos coletivamente hoje.

O crescimento na última década foi real. Mas esse progresso nunca foi obra de um único indivíduo. Foi fruto da FIFA, das Confederações, das Associações Membro e das milhares de pessoas que dedicam suas vidas ao futebol.

A expansão dos torneios, a atribuição das Copas do Mundo da FIFA de 2030 e 2034, a distribuição de recursos às associações. Essas foram conquistas compartilhadas, acordadas em conjunto e realizadas em conjunto.

Não se trata de dinheiro. As Confederações já solicitaram a distribuição responsável das vastas reservas existentes da FIFA para fortalecer ainda mais o investimento no desenvolvimento das Associações Membro.

Não se trata de nenhuma Associação Membro perder o apoio que conquistou, apesar do alarmismo dirigido aos nossos membros que sugere o contrário. Tampouco se trata de rever a expansão das competições, a distribuição das vagas da Copa do Mundo ou quaisquer outras decisões tomadas coletivamente. Essas decisões foram tomadas em conjunto e devem ser mantidas.

Trata-se de algo mais fundamental: a integridade do jogo e a integridade daqueles que foram eleitos para liderá-lo.

Liderança no futebol não é uma posse. Não se trata de deter – ou exigir – poder. É um dever de serviço para com a família do futebol que a confia.

Quando a confiança é quebrada por meio do engano, quando um indivíduo se coloca acima do coletivo que lhe confiou autoridade, esse dever foi abandonado.

A recente carta da FIFA aos seus vice-presidentes e às 211 Associações Membro reconhece que erros foram cometidos no processo. Trata isso como uma falha de comunicação, quando o que o futebol testemunhou foi uma falha de julgamento. Uma proposta apresentada em um cronograma comprimido, sem consulta significativa, e apressada para um prazo final antes que as Associações Membro pudessem analisar adequadamente seus termos não é produto de um descuido — é produto de um plano concebido para limitar a fiscalização.

Não reconheceu que a proposta em si era intrinsecamente errada. Permanece sem o reconhecimento de que a tentativa de vender uma participação na Copa do Mundo da FIFA foi uma profunda falha de julgamento — não apenas um deslize processual, mas uma quebra fundamental de confiança com as próprias instituições que a FIFA existe para servir.

A FIFA também se comprometeu a apresentar um relatório completo sobre esses eventos ao Conselho da FIFA, mais uma vez falhando em reconhecer que a governança adequada diante de uma falta de discernimento tão profunda exigiria que tal revisão fosse conduzida por uma terceira parte totalmente independente, e não pela própria FIFA, seus funcionários ou qualquer outra parte interessada no futebol. A administração da FIFA não deveria ter qualquer participação na condução da revisão.

Conforme correspondência anterior, todos os documentos e registos relevantes devem ser preservados de acordo com a comunicação da UEFA sobre a preservação de documentos.

A própria carta da FIFA também confirma que apenas um dirigente eleito esteve presente na reunião de liderança em Marrocos. Nenhum membro do Conselho da FIFA ou das Associações Membro foi convidado a participar. Apenas o comitê de gestão, composto por funcionários seniores da FIFA, esteve presente.

Esta recente reunião, na qual um seleto grupo de membros do Comitê de Gestão da FIFA — e não o Comitê completo — foi convocado para o exterior, em vez da liderança ir a Zurique para se dirigir ao coração da FIFA, seus funcionários, apenas reforça essas preocupações e representa a continuidade do mesmo padrão de conduta que nos trouxe a este momento. Não se trata da conduta de um guardião do futebol, mas de alguém que acredita que o futebol lhe deve satisfações.

Há silêncio onde deveria haver prestação de contas, distância onde deveria haver transparência.

Essas não são as qualidades que o futebol merece em sua liderança. É por isso que tomamos essa posição: não de forma leviana e não sozinhos, mas juntos e por dever para com o esporte que servimos.

A força do futebol sempre foi a sua união. Apelamos para que essa união seja honrada agora, para uma liderança que sirva o futebol, e não que busque controlá-lo.

Sinceramente seu,

SALMAN BIN IBRAHIM AL KHALIFA (Presidente da AFC)

VICTOR MONTAGLIANI (Presidente da Concacaf)

ALEKSANDER ČEFERIN (Presidente da UEFA)

DATUK SERI WINDSOR JOHN (Secretário Geral da AFC)

PHILIPPE MOGGIO (Secretário Geral da Concacaf)

THEODORE THEODORIDIS (Secretário-Geral da UEFA)"