Portugal deve tentar influenciar política europeia para África

Lisboa /
16 Nov 2019 / 05:00 H.

O ‘Brexit’ vai tornar Portugal mais periférico na União Europeia e o país deve contrariá-lo tentando utilizar a massa crítica que tem para influenciar a política europeia para África, defendeu o especialista em assuntos europeus Miguel Poiares Maduro.

A saída do Reino Unido da UE representa “um desafio estratégico” para Portugal em termos da sua política externa e do relacionamento com o resto do mundo, considerou Poiares Maduro, especialista em Direito Europeu e professor no Instituto Universitário Europeu de Florença, Itália.

O especialista, que falava num debate em Lisboa sobre os desafios da UE para os próximos cinco anos, considerou que o reforço da dimensão atlântica não deve ser prioritário para Portugal, desde logo porque essa não é, ao contrário de África, uma prioridade da política externa da UE.

Por outro lado, sustentou, Portugal “não é único país preocupado com isso” e pode articular-se com os outros países atlânticos da União nesse reforço das relações com o continente americano.

É em relação a África que Portugal pode fazer a diferença, frisou.

“África é o continente estratégico fundamental para futuro do mundo e da Europa e Portugal pode ter um papel fundamental se fizer uso da massa critica que tem, em termos até da definição da política europeia para África”, disse.

Poiares Maduro frisou que, do ponto de vista diplomático, Portugal é “um país bastante eficaz como mediador” e deve “transformar essas capacidades em influência”.

Miguel Poiares Maduro falava num debate com a investigadora Marina Costa Lobo, organizado pelo Clube de Lisboa, consagrado aos principais desafios políticos da UE.

Ambos coincidiram na avaliação do actual enquadramento internacional como negativo para a Europa, designadamente a mudança operada na política dos Estados Unidos em relação à Europa nos últimos anos.

Marina Costa Lobo evocou a recente afirmação do Presidente francês, Emmanuel Macron, de que “a Europa está à beira de um precipício”, para frisar como a UE é hoje “um projecto de enorme sucesso” construído “à sombra” “da protecção benigna dos Estados Unidos”, protecção essa que está em claro retrocesso.

Tal deve-se, considerou, não apenas às políticas seguidas por Donald Trump, mas a uma reorientação da política externa norte-americana para o Pacífico iniciada ainda por Barack Obama.

Já Miguel Poiares Maduro considerou não se tratar de uma reorientação, mas de uma “mudança dos princípios fundadores da política internacional norte-americana”, que passou de uma “lógica multilateral para uma lógica transaccional”, em que as políticas são definidas quase como um negócio, em que para uma medida há uma determinada contrapartida.

“Trump consegue algumas vitórias, mas, para os Estados que não têm escala equivalente, isto é extremamente negativo, porque dificulta e põe em causa uma ordem internacional equilibrada e eficaz”, explicou.

Esta mudança acaba, nesse sentido, por “enfraquecer a ordem internacional clássica” e, dessa forma, “dificultar muito o funcionamento da UE”, embora, por outro lado, “possa sublinhar a importância da integração europeia”, que permite “ganhar escala”.

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