Hospital de Santa Marta já colocou “corações artificiais” em 15 crianças

Lisboa /
16 Nov 2019 / 10:36 H.

Quinze crianças que nasceram com problemas cardíacos graves receberam nos últimos 15 anos, no Hospital Santa Marta, em Lisboa, um “coração artificial externo” que lhes permitiu viver até recuperarem ou fazer o transplante.

Estes aparelhos de assistência ventricular foram aplicados pela primeira vez em crianças em Portugal, em 2004, no Serviço de Cardiologia Pediátrica do Hospital Santa Marta, criado há 50 anos pela cardiologista Fernanda Sampaio, e pioneiro no país.

Em entrevista à agência Lusa, a responsável pelo Programa de Transplante Cardíaco do Hospital Santa Marta, Conceição Trigo, explicou que este sistema mecânico que apoia a circulação é aplicado quando “o coração entra em falência” e deixa de ser capaz de suportar a vida das crianças.

Com este sistema, a criança fica estável e pode fazer a sua vida dentro de determinados limites, enquanto “o coração recupera completamente” ou até encontrar um dador para fazer uma transplantação cardíaca, disse a cardiologista pediátrica.

No Hospital Santa Marta, já foram sujeitos a este tratamento 15 doentes desde os primeiros meses de vida, o mais pequeno tinha cerca de dois meses, até aos 18 anos.

Devido à sua condição, alguns têm de permanecer no hospital um longo período: “o tempo de espera para a transplantação é imprevisível, tanto pode ser 24 horas como um ano ou mais”, afirmou a também responsável pelo Serviço de Cuidados Intensivos do Hospital de Santa Marta, que integra o Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central (CHULC).

“Portugal tem uma legislação que é favorável em relação à doação do órgão, mas na idade pediátrica temos uma grande limitação que é o tamanho das crianças”, sublinhou.

Antes desta opção terapêutica, estas crianças não tinham perspetiva de sobrevivência. Contudo, advertiu, estes aparelhos não são isentos de complicação: “são estruturas muito complexas, com uma tecnologia muito diferenciada, em que muitos acidentes podem ocorrer” relacionados com tempo que as crianças têm de estar com o dispositivo.

“Existem taxas de complicação que rondam os trinta e tal por cento. Isto não é uma panaceia universal, por enquanto, porque a tecnologia é muito pesada”, disse Conceição Trigo.

Durante os últimos 50 anos, milhares de crianças foram tratadas e acompanhadas no serviço de Cardiologia Pediátrica. Ali realizaram-se cerca de 40 mil consultas nos últimos cinco anos e perto de três mil crianças e jovens passaram pelo internamento.

Muitas crianças passaram pela Unidade de Cuidados Intensivos, dirigida por Conceição Trigo, onde todos os dias uma equipa multidisciplinar trata delas, mas também das famílias.

Nesta unidade, lida-se com “as situações mais críticas, mais terminais e mais complexas”, disse Conceição Trigo, contando que o trabalho se “faz muito em equipa”, havendo sempre “um diálogo constante entre o estudo do doente, a decisão que se vai tomar e a aplicação da terapêutica”.

“É um trabalho muito dinâmico e, simultaneamente, muito pesado porque estamos a tratar de casos muito complexos e nas extremidades da vida”, o que torna “o dia-a-dia muito desafiante, muito gratificante, mas muito pesado”.

Acresce a esta situação o receio dos pais que ali moram enquanto os filhos estão internados. Para os apoiar, o serviço dispõe de um gabinete de psicologia.

“Passam-se de facto situações muito difíceis nestes contextos”, mas toda a equipa batalha para que os pais tenham uma “confiança grande” no seu trabalho, que se vai estabelecendo ao longo dos anos.

Alguns destes bebés são acompanhados no serviço mesmo antes de terem nascido pelo ecocardiograma fetal até à vida adulta. “Estão sempre em contacto connosco e nós vamos conhecendo as namoradas, as mulheres e os filhos”.

Portanto, defendeu Conceição Trigo, tem de existir “uma enorme confiança entre a equipa médica e os pais”, porque “só assim é que se pode fazer perspetivar o sucesso completo do tratamento”.

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