“De cabeça levantada”

07 Jul 2019 / 02:00 H.

A legislatura na Madeira chega ao fim com trabalho feito. Pelo menos em quantidade. Para a história da democracia mais madura, embora com algum acne à mistura, fica um recorde digno de registo: 63 das 344 reuniões plenárias foram debates com a presença do Governo Regional. Nunca um executivo social-democrata madeirense manifestou tamanha disponibilidade para a natural troca de argumentos políticos, para o escrutínio permanente e para a prolongada exposição à crítica, também ela meritória sempre que revelou estofo e estudo, sempre que foi acutilante e dispensou o enxovalho. Nunca houve tanta sensibilidade para acolher as diferenças e para o pluralismo como entre Abril de 2015 e Julho de 2019. Nunca um presidente do governo denotou a elegância de ouvir sem ridicularizar e de dizer o que lhe vai na alma sem cair no ridículo.

Se há marca que Miguel Albuquerque deixa de quatro anos de mandato é de conviver frontalmente com a diversidade e com os outrora figurantes da “casa de loucos”, mesmo que nem sempre tivesse sido fácil aturar discursos repetitivos que dão sono, os paradoxos dos que não têm rumo ou as excentricidades de quem não sabe estar com elevação na política. Não admira por isso que tenha confidenciado no último ‘Estado da Região’ que acaba este mandato com “a cabeça levantada”, a pensar no próximo e no futuro.

Esta tolerância e capacidade de encaixe foi transversal. Nas notícias e nas análises, nas reportagens e nas opiniões nunca mudamos de registo ou subvertemos o estatuto editorial para agradar quem manda. Os reparos, alguns severos, estão publicados e, ao contrário do que vivemos noutros tempos, nunca recebemos de Miguel Albuquerque qualquer ameaça ou processo, ofensa pública ou perseguição. O respeito louvável que evidenciou pela natureza do trabalho jornalístico é outras das suas marcas. Pena é que essa lucidez não tivesse feito escola no seu governo, nem nalgumas cabeças parlamentares.

Uma Assembleia com capacidade para produzir mais de 600 iniciativas legislativas e resoluções, com 966 reuniões de comissões especializadas permanentes, eventuais e de inquérito, entre as quais 250 audições é, à partida, motivo de orgulho. Pena é que alguns dos seus deputados tenham transformado em brigas domésticas assuntos de grande alcance e que tenham reduzido muitas vezes a tribuna regional a uma mera assembleia municipal. Pena é que não tenham sido escolhidos os melhores de cada lugar e que tenha havido desperdício de tempo com banalidades. Os partidos que estiveram no Parlamento tiveram recentemente uma oportunidade soberana para estabelecer um compromisso com os madeirenses. Pelo que ouvimos no dia da Região todos querem reforçar a Autonomia sem saber como ou então com excessiva dependência da República. Foi assim ao longo de quatro anos, mas tudo o que seja ‘cabeça na lua’ ou o virar de cara ao essencial fica para próximas análises.

Ricardo Miguel Oliveira