Nobel da Economia traz tema da pobreza para o centro do debate

14 Out 2019 / 23:40 H.

O prémio Nobel da Economia atribuído a três autores de um estudo de combate à pobreza trouxe o tema de “volta”, com medidas para melhorar a vida de quem passa mais dificuldades, de acordo com economistas contactados pela Lusa.

O Nobel da Economia de 2019, no valor de nove milhões de coroas suecas (cerca de 830.000 euros), foi hoje atribuído à francesa Esther Duflo, ao indiano Abhijit Banerjee e ao norte-americano Michael Kremer, pela “abordagem experimental para aliviar a pobreza global”, segundo a Real Academia de Ciências da Suécia.

Para o economista da Nova School of Business & Economics (SBE) Pedro Vicente, “este é um prémio Nobel para a nova economia do desenvolvimento, que põe o acento tónico na análise empírica e na evidência, e que trouxe, de alguma forma, de volta a economia para perto das pessoas”.

“Porque a economia matematizou muito ao longo de algum tempo e a economia do desenvolvimento de Banerjee, Duflo e Kremer trouxe-a de volta para a parte empírica e da evidência”, sustentou.

Conforme explica Pedro Vicente, “esta não é aquela economia dos modelos macroeconómicos, está muito longe desse tipo de economia, embora obviamente continue a ser economia no sentido de ciência económica e de testar teorias e hipóteses de natureza económica sobre o comportamento das pessoas”.

“Aqui o acento tónico é na evidência para guiar as políticas públicas, nomeadamente na luta contra a pobreza e nas estratégias de prossecução dos grandes desafios ligados ao desenvolvimento sustentável”, explicou.

João César da Neves, professor na Universidade Católica, destacou a metodologia, “uma nova técnica que tem sido uma surpresa e uma influência muito grande, porque o que eles fazem é um teste randomizado e controlado”.

O economista explicou que é aplicada “uma política a certas aldeias e não a outras e ao fim de uns anos consegue-se ver o impacto que teve e pode-se considerar um processo representativo porque foi feito de forma não enviesada”.

César das Neves acredita que a questão da redução da pobreza “tem ocupado muita gente muito tempo” e que é um caso “extremo de falhanço económico”.

Carlos Farinha Rodrigues, especialista em Economia Pública do ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa) disse, por seu turno, “que as questões da distribuição dos rendimentos, da pobreza têm, infelizmente, estado muito afastadas da versão mais ‘mainstream’ da economia”.

Por isso, o economista destacou a importância deste prémio Nobel.

“Estes estudos têm por base a ideia de uma multidimensionalidade do fenómeno da pobreza que significa que não é exclusivamente por falta de recursos, é mais complexa e multidimensional e passa pelas questões da educação, da saúde e da própria cultura e condições de vida”, adiantou o professor.

Segundo Carlos Farinha Rodrigues, os três premiados tiveram a preocupação “de fazer não só a aplicação de medidas concretas, mas colocarem o cuidado na avaliação dos resultados para tirar ilações. E muitas das politicas de combate à pobreza não o fazem. Há uma avaliação e validação dos resultados”.

Confessando-se, enquanto economista da área do desenvolvimento, “particularmente atento” à possibilidade de os galardoados com o Nobel da Economia poderem vir a ser estes, Pedro Vicente destacou o facto de todos serem “bastante jovens, na casa dos 40/50 anos”, e do que tal significa num contexto de “grande conservadorismo” na atribuição dos prémios Nobel.

“Poria aqui um grande sublinhado na Esther Duflo, que é a segunda mulher e a mais jovem premiada [com o Nobel da Economia]. Tem apenas 46 anos, o que, para um Prémio Nobel da Economia, é absolutamente fantástico. Isto é um sinal claro da grande influência destas pessoas e em especial desta senhora, que carregou consigo desde os anos 90 um grupo de economistas de desenvolvimento -- o grupo ‘Poverty Action Lab’ do IMT [Massachusetts Institute of Technology] -- para chegar com a ciência ao mundo em desenvolvimento, perguntando de forma sistemática o que funciona e o que não funciona na luta contra a pobreza”, afirmou.

De acordo com o investigador da Nova SBE, se “hoje em dia as grandes instituições de luta contra a pobreza a nível mundial todas trabalham em conjunto com investigadores da área do desenvolvimento, é graças ao trabalho” de pessoas como os três economistas agora galardoados.

“O que está aqui em questão é trazer os métodos experimentais de tratamento e controlo para as ciências sociais. O que estes senhores fizeram foi trazer a ideia de método experimental para a avaliação do impacto de intervenções ligadas ao desenvolvimento económico. Estes métodos permitem estabelecer causalidade entre políticas públicas específicas e resultados junto dos beneficiários e isto é poderosíssimo porque passamos da correlação à causa/efeito o que, em termos de políticas públicas, é muito importante”, sustentou.

“Passa muito pela ideia de tentar mudar a vida das pessoas que mais precisam através do conhecimento. Acho que este prémio Nobel é um exemplo fantástico sobre a contribuição da ciência para melhorar a vida das pessoas, neste caso das pessoas mais pobres”, concluiu.

Os trabalhos conduzidos pelos premiados “introduziram uma nova abordagem para obter respostas fiáveis sobre a melhor maneira de reduzir a pobreza no mundo”, concentrando-se em aspetos concretos e manejáveis como, por exemplo, a procura das intervenções mais eficazes para melhorar a saúde infantil ou a educação, adiantou a Academia.

Com a concentração em campos concretos e uma aproximação experimental, os investigadores encontraram métodos mais eficazes para resolver problemas específicos.