Desfecho para a crise na Venezuela é incerto, afirma António Costa Pinto

08 Out 2019 / 14:30 H.

O investigador António Costa Pinto considera que não é possível ter-se a certeza sobre qual será o desfecho da crise na Venezuela, sobretudo pela confusa interferência do poder internacional e também das grandes potências.

“As intervenções pro-democratizantes do poder internacional têm sido muito confusas e a interferência num certo sentido das grandes potências, nomeadamente até da Rússia na Venezuela, não permitem dar a certeza do tipo de desfecho que ocorrerá na Venezuela”, diz o investigador em entrevista à agência Lusa.

O investigador, que é professor do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, defende que até há pouco tempo, existia um poder internacional pró-democrático, em grande parte devido aos Estados Unidos.

“Entretanto, a política externa dos Estados Unidos tem vindo a alterar-se, não tanto porque os Estados Unidos não sejam obviamente anti-Maduro, mas porque abandonaram em parte a estratégia democratizadora, a interferência democratizadora”, refere.

Segundo António Costa Pinto, tal “como aconteceu no passado, por exemplo com a África do Sul e como aconteceu com outros processos de transição democrática, inclusivamente na América Latina”.

“O Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro está isolado na América Latina. É um sucessor de uma dinâmica populista de esquerda, que se tem vindo a caracterizar por várias crises, pelo progressivo estabelecimento daquilo que chamamos, em ciência política, de autoritarismo competitivo”, afirma.

António Costa Pinto sublinhou que é “um autoritarismo competitivo com limitações à oposição, com desvios em relação à natureza democrática da Venezuela e com traços autoritários muito significativos”.

Por outro lado, o professor do ICS refere que o populismo de direita que está atualmente a vigorar no Brasil não teve uma grande projeção nos demais países da América Latina.

“É muito importante verificarmos como, por exemplo, a vaga de mudança política no Brasil, com a eleição do Presidente Jair Bolsonaro, não tem tido um impacto muito grande em movimento semelhantes países da América Latina”, declara.

“Quando observamos a maior parte dos governos de direita da América Latina nos últimos anos, estes são governos que estão mais próximos dos modelos clássicos de direita, dos partidos clássicos de direita e não tiveram uma inovação como, evidentemente, aquela que vimos na eleição de Bolsonaro”, acrescenta.

Jair Bolsonaro, segundo o professor, “está mais integrado na atual onda de populismo de direita a nível global, quer nos Estados Unidos, quer na Europa”.

“Bolsonaro tem conseguido lidar com os outros governos de direita latino-americanos, mas não podemos dizer que haja um equivalente seu noutros países da América Latina”, avalia.

Sobre a Argentina - que no final de outubro vai às urnas para as eleições presidenciais --, o investigador diz que ao se observar o processo político argentino, verifica-se que este é muito específico e que, no geral, não se expande a outras áreas da América Latina.

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