Socipamo à procura de mão-de-obra

Vice-presidente visitou as instalações e elogiou a capacidade de recuperação da empresa, fortemente atingida pela aluvião de 2010

03 Dez 2019 / 12:42 H.

É difícil encontrar mão-de-obra, disse o director financeiro da Socipamo ao vice-presidente do Governo Regional, pedindo a Pedro Calado que intervenha para que haja mais formação profissional na área. A empresa está disponível a dar formação em contexto de trabalho aos que queiram trabalhar e não tenham conhecimentos ou experiência, mas nem assim tem sido fácil suprir as necessidades, revelou Rui Coelho. O trabalho por turnos e a dificuldade em compatibilizar com a rede de transportes públicos, assim como o pouco prestígio associado aos cargos ajudam a explicar as vagas que continuam por ocupar, acredita. Esta manhã Pedro Calado esteve nas instalações da Socipam na Estrada Comandante Camacho de Freitas, na Fundoa, para uma visita a convite da empresa. Lá ficou a par de todo o processo desde a farinha ao pão, mas também das dificuldades.

A empresa fundada em 1963 tem 12 lojas e já exporta para o continente e Reino Unido sobretudo bolo do caco. O objectivo é chegar mais longe, levando o bolo de mel à comunidade espalhada pelo Mundo. Para isso, está a apostar num projecto para melhor embalar e apresentar o tradicional bolo fora. Paralelamente ao desenvolvimento de novos projectos, vai gerindo o dia-a-dia, e com ele a vida de mais de 300 pessoas que emprega. Um terço está afecto à panificação e pastelaria, divididos pelas nove lojas Opan, uma Padaria Madeirense e duas Panidoce, conjunto que integra o grupo do empresário Manuel Cabral.

A produção está concentrada em dois pontos, um deles é a fábrica na Fundoa, o segundo é na Panidoce, no Estreito de Câmara de Lobos. As lojas realizam 379 entregas diárias, a que se somam as restantes entregas de quem recebe pão e bolos mais do que uma vez por dia, como são os casos de alguns hotéis e superfícies comerciais. Ali fazem-se pão próprio e receitas a pedido externo, como a pedido de supermercados. A Socipamo gasta uma média de 6 toneladas de farinha por dia. Mas faltam pessoas para trabalhar.

“Já está numa fase de internacionalização de alguns produtos, mas é muito difícil de encontrar mão-de-obra, se não qualificada, pelo menos que tenha apetência para começar a aprender esta arte”, fez eco Pedro Calado da maior dificuldade apontada pelo director financeiro e que é a grande preocupação.

“A exigência dos nossos horário e se calhar um certo estigma social associado às profissões que proporcionamos na nossa unidade juventude a não se sentir atraída por ela”, disse Rui Coelho. No atendimento ao público, nas lojas, o director financeiro revela que também faltam funcionários. Há pessoas que procuram trabalho, sobretudo um elevado número de regressados da Venezuela que se apresentam ao recrutamento, mas a língua é uma barreira. “Para o atendimento ao público convém que sejam pessoas que consigam comunicar bem em português”.

“Os nossos jovens quando são chamados a trabalhar por turnos, sobretudo ao fim-de-semana não mostram grande apetência por esse tipo trabalho e a grande dificuldade que esta indústria está a sentir é exactamente isso. Pediram-nos para olhar pelos cursos de formação profissional, os que possam agregar e fazer com que esta juventude comece este tipo de actividades”. Neste momento a empresa procura dez pessoas.

O vice-presidente recordou que a Madeira está com uma taxa de desemprego “já baixa”, de 6,9%, e que o desemprego jovem tem vindo a reduzir “significativamente”. No entanto, não acredita que possa desaparecer completamente. “Há aqui uma fatia, uma percentagem que vai ser muito difícil nós baixarmos, porque os jovens hoje não têm, ou não são muito chamados, não é uma actividade apelativa, para este tipo de trabalho, mas que há trabalho, há. O mercado está carenciado”.

Pedro Calado diz que as pessoas, em particular os jovens, interessam-se por outro tipo de curso e de formação, sobretudo na área tecnológica. “Mas é uma área que se tem que pensar bem, porque é uma área característica, que domina muito a nossa actividade. Os produtos que são aqui feitos, sobretudo para a área da panificação, da restauração, da pastelaria e também da hotelaria são fundamentais para manter este sector vivo e é preciso apostar na juventude nesta área”, afirmou.

Rui Coelho diz que há uma lacuna na formação específica para estas áreas, a empresa tem dificuldade em integrar em planos de formação. “Acabamos por ter de recorrer à formação em ambiente de trabalho e tentar que as pessoas cresçam rapidamente para o desempenho das funções. Depois muitas vezes temos o revés, que é surge-lhes outra oportunidade de trabalho e as pessoas acabam por desistir, e o investimento que foi feito, acabamos por perder”, lamentou.

O vice-presidente aproveitou a visita para elogiar a capacidade da empresa de recuperar dos danos provocados pelo 20 de Fevereiro de 2010, revelando que a Socipamo tem beneficiado ao longo dos anos do apoio do sistema de incentivo ao funcionamento, dos apoios comunitários, sobretudo depois da aluvião.

2010 foi de uma grande contrariedade. Mas Manuel Cabral não desistiu. Mostrou a vontade de reerguer e acabou por acontecer rapidamente, graças também aos apoios. Agora, sentem-se novamente lesados. “No ano de 2019, estamos a ser fortes vítimas dos incêndios de 2016. Nós não sofremos qualquer dano ao nível dos incêndios, mas deparamo-nos aqui com uma estrada fechada desde Janeiro, com fortes impactos na facturação, numa das nossas melhores lojas”, revelou Rui Coelho. O director financeiro aponta para uma quebra de mais de 50%. E os danos não se acabam automaticamente com a reabertura da estrada. Há um efeito que se propaga no tempo, pois mesmo depois da reabertura, que deverá acontecer antes do final do ano, é preciso voltar a habituar as pessoas a usar aquele acesso, recorda. “Fomos uma vítima indirecta, três anos depois, daqueles que foram os incêndios desse ano”.

A Estrada Comandante Camacho de Freitas devia ter reaberto em Outubro, segundo as contas do director financeiro, a obra era para nove meses e começou em Janeiro. Não foi em Outubro nem em Novembro. “Nos tentamos manter o contacto quase diário com o engenheiro que nos parece que é o responsável da obra e a perspectiva já foi em Novembro, estamos em Dezembro. Vem aí o Natal. Se o Menino Jesus nos ajudar, se calhar antes do Natal.”

Quanto a projectos, a Socipamo quer aprofundar a internacionalização. Têm através dos chamados ‘mercados de saudade’ feito algumas exportações do Bolo do Caco e ao nível do Bolo de Mel querem aumentar a exportação pelo mundo. Vão desenvolver com a Universidade da Madeira uma forma de embalar que preserve as qualidades do produto. “O bolo tem características com alguma propensão para a libertação de gorduras. O condicionamento e a própria apresentação nos estabelecimentos de venda, se não for a melhor, leva a que o aspecto se torne desagradável com o passar do tempo. Portanto é um projecto que queremos fazer com os pés bem assente. Estamos neste momento a tentar desenvolver esses estudos de forma a ver a melhor forma de o embalar de modo a que ele chegue ao cliente final passados às vezes meses, com as mesmas características do dia em que saíram da nossa fábrica”, contou Rui Coelho.