Precisamos de falar…
Setembro, fim da época (f)estival, com os vários recomeços, desde a política adormecida por ter ido a banhos, às aulas depois de uma época de intensa polémica por causa dos exames, e das desventuras do Ministro Neves.
É também época de se enterrarem os amores de verão nas areias das praias que as têm, enterro esse que pode levar aquela frase que todos conhecem - precisamos de falar, quando ela chega de mansinho, com um ligeiro sobre-elevar de sobrancelha, a esquerda, mas também pode ser a direita, ou mesmo as duas, com um ligeiro sorriso misto entre divertido e zangada, sabe Deus qual, e diz com uma voz aveludada, com sabor a mel e cheia de flores:
- Amor
(ou querido, ou outra forma com que carinhosamente costuma tratar o marido, companheiro, namorado ou que quisermos imaginar, e que pode ir do nome próprio ou até um, um pouco mais ríspido, olha lá!, mas fiquemos pelo amor, que até fica bem à história)
precisamos de falar!
O marido, companheiro, namorado ou o que queiramos imaginar faz uma cara de verdadeiro espanto mesclado com um tremor de terror, pergunta de imediato:
- o que é que eu fiz?!
Agora imaginemos que é ele a chegar ao pé dela com uma cara fechada, com as sobrancelhas ligeiramente arqueadas (as duas, porque aquela arte de saber levantar uma ou outra consoante a entoação que querem transmitir à frase que se propõem proferir é algo que é intrínseco às mulheres), e diz tentando segurar a voz para parecer tonitruante e não vacilante:
- Amor
(ou querida, ou outra forma com que carinhosamente costuma tratar a mulher, e que até pode ser o nome próprio, já que o ríspido olha lá! já é demasiado para o comum dos mortais do sexo masculino quando tentam argumentar com a mulher, companheira, etc.) precisamos de falar!
Aí, ela retribui o olhar cheia de compaixão e calmamente pergunta:
- o que é que tu fizeste?!
Sem qualquer intenção directa ou indirecta de início de discussão sobre quantos géneros existem, se dois ou sei lá uns trezentos e vinte mais aqueles que se identificam como outra coisa qualquer, vamos assumir a existência de dois: o feminino e o masculino, com todas as diferenças, mesmo que estereotipadas, inerentes à condição feminina ou masculina.
Imaginemos então que os governantes, os políticos em outras funções, os directores de repartição, os CEO’s e seus subalternos directos, enfim todos aqueles e aquelas que têm uma função decisória são a parte feminina da história acima contada, e que o povo, aquele Zé Tuga que Bordalo Pinheiro imortalizou, rude e simpático ao mesmo tempo, sempre pronto a um dichote um pouco mais sarcástico sobre a contraparte, com um manguito sempre pronto a executar quando as coisas não lhe correm de feição, é a parte masculina da mesma história.
Vem “ela” de mansinho, porque à bruta nem papas nem bolos, e diz: precisamos de falar!
Vai daí “ele” recrute temeroso, sem fazer ainda o dito manguito que Bordalo imortalizou, também porque o precisamos falar foi dito de um jeitinho tão suave que não havia porque entrar “a matar” perante aquela questão apresentada com tanta delicadeza: o que é que eu fiz?, sabendo que ela sabe que ele sabe que ela sabe que ele não desconfia nem um pedacinho acerca do que ela está a falar.
Todos sabemos onde é que esta conversa normalmente acaba: com ela a dizer para ele não se fazer de desentendido, que sabe perfeitamente o que ela quer dizer, e com ele a dizer que sim só para não contrariar, porque contrariar uma senhora é algo que o portuga macho sabe que não pode fazer, senão ela zanga-se e lá terá ele de lhe mostrar o gesto que Bordalo imortalizou.
Mas imaginemos que o nosso Zé se enche de brios e, achando que tem razão num qualquer ponto que ela (governantes, políticos em outras funções, directores de repartição, CEO’s, etc) insistiu demasiado e enfrenta-a dizendo cheio de brio (daquele que os forcados têm quando enfrentam um touro mesmo antes da pega - e esta é a única parte da chamada “festa brava” que eu aceito – homem e touro frente a frente, sem subterfúgios, olhos nos olhos, trocando rosnares e cantares como só eles sabem fazer): precisamos falar!
Então ela faz um sorriso desconcertante e responde ao Zé, confundindo-o a tal ponto que nem um manguito ele consegue levantar: - o que é que tu fizeste, Zé?, que deixa o nosso Zé com aquele amargo de boca que não passa nem com uma ginginha, pois mais uma vez o Zé sabe que se deixou, ou foi obrigado a deixar-se, levar pela conversa melosa dos que encarnam a parte feminina desta história, trazendo à memória aquele ditado bem portuga que reza que no fim quem se lixa é sempre o mexilhão.
E perante o – precisamos de falar – com que o Zé interpelou o ministro Neves, este candidamente perguntou-lhe: o que é que tu fizeste, Zé Tuga? Olha que não me deixo intimidar!
E o Zé Tuga nem com um manguito se salva.
E para acabar bem o estio:
Não reparei quando é que
A vida
Começou a andar mais depressa.
De repente,
Num dia,
As pessoas com quem eu ria
Tornaram-se memórias.
Os lugares que eu gostava
Tornaram-se histórias.
E a pessoa que eu era
Tornou-se em alguém
Que eu visito
Em fotografias antigas.