O desinvestimento na democracia
Depois da silly season de verão, que de leve teve pouco e de triste teve bastante, dou por mim a perguntar se ainda queremos perceber o que se passa ou se já nos basta escolher de quem gostamos e aplaudir. Às vezes, parece-me que pensar se tornou uma maçada.
Veja-se o alegado assalto ao gabinete de André Ventura. Alegadamente, roubaram informações contra Luís Neves. Veremos. O mesmo Luís Neves que serviu de pretexto a uma moção de censura ao Governo, porque ministros, individualmente, não caem por moções de censura. Ventura sabe-o. Mas deu alarido, entrevistas e música para os noticiários. E nós lá estivemos a ouvir.
Quanto ao assalto, Ventura anunciou que se constituiu assistente. Muito bem. A investigação dirá o que aconteceu naquele gabinete remexido, com imagens cristãs pelo meio. Eu não sei. O que me inquieta é a facilidade com que se escolhem culpados para consumo público. E pergunto-me quem será atirado à fogueira se esta história se tornar muito incómoda. Tenho a certeza que o líder jamais será. O caso de Castro e a passagem de Ventura pela Madeira deixaram-me esse sabor: os homens de confiança parecem ter prazo de validade. Já ver independentes com a camisola do Chega no beija-mão da rentrée tem qualquer coisa de extraordinário. Independentes de quê, exatamente? Nem comento mais. A imagem chega.
Trump, referência desta maneira de fazer política, já vai mais adiante. Acusa quem publica o que lhe desagrada, barra órgãos de comunicação social na Casa Branca e aparece a “Trump TV”. Confesso que me impressiona a naturalidade com que se recebe isto. Uma televisão do poder, depois de se dificultar o trabalho a quem o questiona. E ainda há quem aplauda em nome da liberdade! Rússia, a China e os talibãs deviam ter-nos ensinado alguma coisa sobre o destino de quem discorda. À esquerda ou à direita, o autoritarismo acaba sempre por chamar traição à diferença.
Mas a comunicação social também tem de olhar para si. Não compreendo que dê palco sem fim a quem a despreza e tão pouco tempo a quem tenta explicar. Informar exige trabalho, perguntas, confronto de versões. O debate precisa de moderados, progressistas, direita e esquerda. A gritaria permanente cansa-me e esclarece-me muito pouco.
E nós? Julgamos mais depressa do que lemos. Uma frase basta para condenar; outra, para absolver os nossos. Conheço tanto “esclarecido” que, afinal, só repete o que ouviu ao seu lado. Carneiros convencidos de que pensam pela própria cabeça. A emoção toma conta da razão e qualquer solução imediata parece magnífica, desde que dispense o incómodo de refletir. É este o desinvestimento na democracia que me preocupa. Tenho receio de que chegue cá o resto, porque já vamos aceitando o princípio.
A culpa não é só dos políticos, nem só dos jornalistas. Também é minha. Também é sua. É de todos.