Recifes artificiais criados na Madeira são importantes mas não replicam os naturais
Os recifes artificiais criados na Madeira e no Porto Santo, através de navios afundados, contribuem para manter a biodiversidade marinha, mas não conseguem replicar as funções ecológicas dos recifes naturais, concluiu um estudo científico.
Em entrevista à agência Lusa, o investigador Pedro Neves, do Observatório Oceânico da Madeira, explicou que as conclusões resultaram de nove anos de monitorização de peixes em recifes nas ilhas da Madeira e do Porto Santo.
A investigação, realizada em colaboração com o Instituto de Florestas e Conservação da Natureza da Madeira e a Universidade da Las Palmas, analisou dois recifes naturais e um recife artificial em cada uma das ilhas, de modo a aferir até que ponto as estruturas artificiais replicam as naturais.
Os dois recifes artificiais analisados resultam do afundamento de antigas corvetas da Marinha Portuguesa: a Afonso Cerqueira, na Madeira, e a General Pereira d'Eça, no Porto Santo.
"A conclusão a que chegámos foi que [os recifes artificiais], em algumas coisas, comportam-se como os naturais, ou seja, em termos de espécies temos mais ou menos as mesmas num sítio e no outro", realçou o investigador, ressalvando, porém, que "as espécies presentes nos recifes artificiais não replicam na totalidade as funções ecológicas das que estão nos recifes naturais".
"[Os recifes artificais] continuam a ser muito importantes, por exemplo para o mergulho, para o turismo, para a economia local, mas não podemos vê-los como substitutos para os recifes naturais", reforçou.
Na Madeira, "onde as comunidades de peixes são mais ricas e funcionalmente diversas, as diferenças entre recifes naturais e artificiais foram menos marcadas" e as estruturas artificiais "parecem funcionar sobretudo como uma extensão da rede de habitats já existente", aponta o estudo.
Na ilha do Porto Santo, pelo contrário, as diferenças entre locais foram mais evidentes, tendo o recife artificial apresentado "valores elevados de diversidade funcional quando comparado com um recife natural sujeito a maior pressão de pesca".
No total, foram registadas 52 espécies de peixes, sendo as mais abundantes a castanheta, o peixe-verde, o porquinho, a castanheta-preta e o bodião.
O estudo identificou ainda "espécies particularmente relevantes do ponto de vista funcional e de conservação, incluindo grandes predadores e espécies ecologicamente distintas, como o mero, o badejo, o peixe-cão, o peixe-porco e várias espécies de raias".
Pedro Neves sublinhou que os recifes artificiais são importantes para criar 'habitat', mas também é necessário continuar a proteger os 'habitats' naturais, alertando que essa proteção não pode ser feita apenas tendo em conta o número de espécies de cada local.
O biólogo marinho explicou que é necessário "criar mosaicos, áreas protegidas" que tenham vários 'habitats', designadamente fundos de areia, recifes rochosos ou campos de algas, para que não seja apenas uma "peça do puzzle" o alvo da proteção.
"Só assim é que nós conseguimos depois preservar a biodiversidade regional toda, não podemos só preservar um recife natural porque tem mais espécies do que um fundo de areia, não podemos preservar só um recife artificial porque tem mais densidade do que um recife natural, temos que tentar preservar um bocadinho tudo", reforçou o investigador.
O desafio agora passa por converter os números e as observações da investigação, transformando-os em medidas e informação "que sejam facilmente compreensíveis por quem tem que tomar decisões", acrescentou.
Este artigo científico resultou do trabalho realizado pelo programa BioMa, que monitoriza a biodiversidade marinha no arquipélago desde 2016, com mergulhos a vários locais na costa da Madeira e do Porto Santo, duas vezes por ano, uma no verão e outra no outono.
A equipa do BioMa vai aos mesmos locais, todos os anos, tirar fotografias e registar a vida marinha que se encontra nos habitats costeiros, desde recifes rochosos, fundos de areia, campos de rodólitos e estruturas artificiais.
Atualmente estão abrangidos 19 locais em ambas as ilhas, mas o futuro passa por alargar os mergulhos a outros sítios, indicou Pedro Neves, referindo que a costa norte, as Desertas e as Selvagens são zonas que não estão abrangidas ainda.
O trabalho do BioMa permitiu já catalogar cerca de 85 espécies de peixes e mais de 70 de invertebrados costeiras, além da identificação de novas espécies para a região e para a ciência.
Pedro Neves vincou que só com uma longa observação e periódica é possível tirar conclusões e, consequentemente, tomar decisões políticas.
Ao longo destes 10 anos, já há muitos dados recolhidos e vários estudos científicos publicados, mas ainda é prematuro tirar conclusões sobre, por exemplo, evoluções de espécies ou os impactos da atividade humana nas espécies, referiu.
"Nós só conseguimos fazer isso se tivermos uma série de dados muito longas", indicou, explicando que é difícil aferir se uma determinada espécie não está lá num determinado momento por razões naturais ou por motivos de intervenção humana.
Os investigadores do Observatório Oceânico encontram-se neste momento também a comparar áreas marinhas protegidas com zonas que não são alvo de qualquer medida de proteção, assinalou o biólogo marinho.