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Uma Volta à Ilha…

No antigamente, quando a Madeira “era” grande, mas já com estradas à volta da ilha ligando vilas, lugares, freguesias e povoações, quando dar uma volta à ilha, de carro pois claro, era uma aventura para quase o dia inteiro, quando se demoravam mais de três horas para chegar do Funchal aos Prazeres e outras tantas dali até ao Porto Moniz e mais umas quantas para se chegar ao Funchal via Encumeada ou ainda mais via toda a costa norte, contornando vales e cabeços num vai-vem entre a ponta do cabeço e o fundo do vale, truque indispensável para manter a estrada a uma cota agradável evitando fazer grandes subidas íngremes que mais íngremes se tornavam quando o sentido era descendente, fazendo com que os travões tivessem trabalho redobrado (quando não aqueciam demais e deixavam de funcionar, obrigando a paragens mais ou menos demoradas para arrefecimento e podermos continuar a viagem com alguma segurança).

Era assim a Madeira de antanho: uma ilha pequena que a orografia tornava grande, quando vir à cidade era quase uma estafa que só se fazia por absoluta necessidade.

Foi nesta ilha pequena no tamanho mas grande no querer (sempre foi assim, até hoje) que um grupo de entusiastas do desporto automóvel idealizou uma prova à volta da ilha e que, por isso mesmo a chamou de: “Volta à Ilha”, corria o ano de 1959, e o grupo pertencia ao Club Sports Madeira, na altura já um clube cinquentenário e com pergaminhos fixados no desporto madeirense.

Foi um sucesso, com alguns concorrentes continentais a mostrarem como se faziam corridas de automóveis e com os madeirenses, para quem o Motorsport (influência dos ingleses) não era já uma novidade absoluta, a darem luta e boa conta do recado.

O meu Pai fazia parte do grupo que organizou as primeiras edições da “Volta”, chegando a ser Director em algumas, poucas, edições já na década de sessenta, e passou a paixão pelos ralis aos descendentes.

A “Volta”, como carinhosamente era chamada, entranhou-se na sociedade madeirense, desde então até hoje, foi crescendo, sempre com os concorrentes continentais, mais habituados ao Motorsport, a “darem cartas”, até que em 1965 um jovem piloto prodígio madeirense levou o caneco mais alto para casa – o Zeca Cunha com o seu TR4 (que ainda mexe pelas mãos de um outro apaixonado pelo desporto automóvel na sua vertente de Clássicos).

A “Volta” integrou o Campeonato Nacional de Ralis desde a sua criação em 1967, o que trouxe motivação extra para a Organização, ainda e sempre a cargo do Madeira, que sempre almejou outros vôos para o seu rali. Como fazia parte do Campeonato Nacional, todos os pilotos de topo vinham fazer o rali e traziam outros conhecimentos aos nossos pilotos locais que, mesmo tendo melhor conhecimento das estradas, faltava-lhes o traquejo competitivo em provas de maior dimensão, até que em 1975 uma outra equipa madeirense ganhou o rali: Janica Clemente/Miguel de Sousa (o próximo vencedor madeirense seria só em 2004, mas já lá vamos).

Entretanto o Madeira conseguiu que o Rali integrasse o Campeonato Europeu de Ralis, então com vários coeficientes de pontuação, tendo entrado com o coeficiente mais baixo, o 1 (iam de 1 a 4, sendo neste que estavam os ralis mais importantes), tendo subido ao coeficiente 4 em 4 anos, tendo ficado no topo do ERC (European Rally Championship) até 2012, ano em que passou a integrar o ERT (European Rally Trophy), ambos sob a égide da FIA. Foi e continua sendo um dos mais icónicos ralis de asfalto na Europa dos Ralis.

Como já referi, só em 2004 voltou a haver um vencedor madeirense: Vitor Sá/Ornelas Camacho, que abriram as portas para que mais tarde fossem os madeirenses a “dar cartas” com vitórias consecutivas do Alexandre Camacho/Pedro Calado que detêm o recorde de vitórias do rali. Se antes havia um prémio especial para o melhor madeirense (ganhei-o quando fiz equipa com o Raúl Varela em 1981), agora este prémio é disputado ao mesmo tempo que disputam o 1º lugar do rali, deixando para os visitantes a consolação de poderem ser o melhor visitante.

Por tudo isto, o rali firmou-se como uma festa anual que todos, bem, quase todos, os madeirenses gostam de seguir, com uma paixão de explicação difícil, independentemente do Campeonato ou Troféu FIA a que pertença (isso são contas de outro rosário, já tantas vezes explicado e tantas vezes mal entendido por todos os comentadores, profissionais e de bancada, quando dizem “ah! isso é conversa” – não é, mas no seu, deles, entender, a opinião está pré feita).

Tive a honra e o privilégio de durante quase três décadas pertencer ao “núcleo duro” do rali Vinho da Madeira e de, em 21 edições consecutivas (2004/2024), ter sido o Director de Prova e de na edição de 2025 ter sido nomeado Comissário Desportivo naquela que foi a 1ª edição do Rali da Madeira.

Este ano, sem funções específicas para além de membro da Comissão Organizadora, pude enfim viver o rali por fora.

A alegria, a paixão, a vontade de ver de perto o evoluir das máquinas tripuladas pelos seus ídolos sejam estrangeiros, continentais ou locais, vibrando quando “um dos nossos” consegue fazer melhor do que os que nos visitam (e este ano não foi um, foram dois que suplantaram quem nos visitou!) contagia todos os que se fazem à estrada desde muito cedo e por lá ficam enchendo restaurantes e bares um pouco por toda a ilha fazendo também mexer fortemente a economia local.

É uma festa, e é uma festa que é esperada com algum grau de ansiedade naquelas semanas que antecedem o primeiro fim-de-semana de agosto, para depois ser vivida intensamente, confraternizando, acampando nas serras (às vezes a semana inteira), aproveitando o que de bom a nossa terra tem para oferecer, e é uma festa que sendo difícil de descrever, é fácil de entender quando a vivenciamos.

Para o ano há mais, para gáudio dos que amam o rali e a sua festa e desprazer para quem não gosta (que também os há e estão no seu direito) do desporto automóvel e tudo tentam fazer para fomentar o deita abaixo – eu não sou de futebóis, mas nada tenho contra os que o amam, pelo contrário, procuro entender a paixão e ao procurar entender estou a colaborar para o esbater de desentendimentos que sabemos existir. Façam esse exercício, os que não gostam do rali, ou dos ralis, ou do desporto automóvel, tentem entender a festa que é proporcionada e pode ser que possam vir a gostar!

Não foi uma, foram até agora muitas dezenas voltas à ilha que tive o privilégio de viver e que espero que continuem para que a festa que o automobilismo pode proporcionar possa continuar por muitos e bons anos!

Viva a Volta!!