O torpor nacional
Mês de agosto: o país fecha, os deputados evaporam, a justiça entra em estio e o comentariado recolhe à sesta. Menos o Luís. Um Montenegro em alerta que percorre a necrópole onde repousa a ética, não por devoção à finada, mas para se certificar de que ela jaz quieta.
Nas últimas semanas, a República tem sofrido peripécias ministeriais. Desde a Educação ao MAI do ex-diretor nacional da Polícia Judiciária, outrora embrulhado na aura de zorro do bem, quase cardeal de uma igreja onde a virtude se exibe mais do que se pratica. A ética, por estas bandas, não é apenas esquecida: está desativada.
Um e outro Luís deveriam vagar. O problema é que, na política contemporânea, a moral não é fundamento; é acessório, como o lenço no bolso do blazer. E, como já não resta qualquer bidão de prudência, a vida pública tornou-se num exercício de sobrevivência estética: não se age para ser digno, mas para parecer imune.
Convém, porém, recordar que esta crise não é só de pessoas; é de hábitos, de indiferenças e de cumplicidades. Na Madeira, por exemplo, a reeleição de arguidos deixou de causar sobressalto: institucionalizou-se o que outrora corava de vergonha. A ética foi relegada a mero adereço. É aquela mostarda que só adensa a artificialidade à comida de plástico. Como diria um latino mais severo, à corrupção das palavras costuma preceder a corrupção das coisas: quando já se chama virtude ao mero desenrascanço, o abismo está aberto, apenas impedido pela cortina mal pendurada.
É aqui que surge a virtuosa lembrança de Cícero: a República não se sustenta sem costumes, e não há lei que sobreviva ao apodrecimento da moral pública. E como advertia Séneca, não é o muito tempo que nos falta, mas o muito tempo mal gasto. Portugal parece entusiasmado: gasta-se o tempo em tardias explicações, o poder em cerimónias e a vergonha em indocumentadas prestações aos fins-de-semana.
As prioridades afinadas da Madeira aprestam-se a investir uns milhares de euros na aquisição de uma publicação do antigo presidente do executivo. É cultura, é legado, é memória. Já para garantir que cidadãos com deficiência saiam de casa e participem na tão proclamada “inclusão”, a tesoura do rigor é firme, por falta de verba para consertar as viaturas. A inclusão é assim superada pela bizantina erudição literária, pois não vende, não rende nem conta sequer, para uma tiragem limitada.
E porque estas epifanias sucedem-se agora, vamos erguer torres num território onde a escala sempre foi imposta pela encosta e pela paisagem, como se a Madeira fosse um tabuleiro plano e não um equilíbrio frágil entre geografia e identidade. Governar, afinal, tornou-se isto: densificar por decreto, com papéis, sem papéis, ou com papéis talhados para que a exceção passe por planeamento.
No fundo, reinam o velho pão e circo: pão cada vez mais racionado e um circo que já nem precisa de saltimbancos. A política encarrega-se do espetáculo, em regime de vaidade contínua.