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Dor de cabeça ou enxaqueca?

A enxaqueca é uma dor de cabeça, mas a dor de cabeça nem sempre é uma enxaqueca

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Foto Shutterstock

A cefaleia, habitualmente designada por dor de cabeça, e a enxaqueca não são a mesma coisa. A enxaqueca é uma dor de cabeça, mas a dor de cabeça nem sempre é uma enxaqueca. Perceber as diferenças entre estes problemas ajuda a reconhecer sintomas, o que é essencial para um correcto diagnóstico e tratamento.

Cefaleia

A cefaleia é uma situação clínica muito frequente, que pode ser um sintoma isolado ou estar integrada numa síndrome mais ou menos complexa. Ou seja, podem ser cefaleias primárias – um problema de saúde por si só – onde se incluem as enxaquecas, cefaleia tipo tensão, cefaleia em salvas, entre outras, ou secundárias, representando cerca de 90% dos casos. Já as cefaleias secundárias resultam de outros problemas de saúde, como infecções, traumatismos cranianos, alterações da tensão arterial ou da glicemia.

A cefaleia de tensão caracteriza-se por uma dor mais leve, do tipo pressão ou aperto, com localização bilateral, e que não se agrava com a actividade, associando-se mais com a intolerância ao ruído. Na cefaleia em salvas, a dor é mais severa, unilateral com localização orbital (à volta do olho), supraorbital (acima do olho) e/ou temporal (na têmpora).

Existem ainda outros tipos, como a cefaleia primária de tipo guinada, que dura alguns segundos, a cefaleia primária de esforço, que ocorre após o exercício físico, e a cefaleia primária associada a actividade sexual. Ao todo, existem 14 grandes categorias que se podem subdividir em mais de 200 formas diferentes de cefaleia. O diagnóstico é feito a partir da história clínica, sendo que em alguns casos o médico pode pedir exames complementares, como Ressonância Magnética ou TAC cerebral.

Enxaqueca

A enxaqueca é um tipo comum de dor de cabeça. É uma das formas clínicas mais comuns de cefaleia primária ou idiopática, apresentando cerca de 20 géneros diferentes. É uma afeção do cérebro e pode ser hereditária. Em Portugal, a prevalência da enxaqueca ao longo da vida é de 16%. Segundo a Organização Mundial de Saúde é a oitava causa a nível mundial de anos vividos com incapacidade, quando consideradas todas as doenças conhecidas no mundo.

De um modo geral, inicia-se entre os 15 e os 40 anos, mas pode aparecer na infância ou logo após a primeira menstruação. Algumas das suas características estão muito associadas ao ciclo reprodutivo feminino: maior prevalência depois da primeira menstruação ou durante o período menstrual; agravamento ocasional pela toma de pílula anticoncepcional ou de terapêutica hormonal; atenuação ou desaparecimento durante a gravidez ou na menopausa. Antes da adolescência, a enxaqueca atinge rapazes e raparigas por igual. A partir daí, é duas a três vezes mais frequente no género feminino.

A enxaqueca é provocada por uma combinação de processos a nível cerebral, nomeadamente a excitação/depressão de células, dilatação de artérias e libertação de substâncias químicas. As pessoas com enxaqueca são mais sensíveis a certos estímulos, ambientais ou do seu próprio organismo, que podem desencadear esses processos cerebrais. Pensa-se que há também alguma suscetibilidade genética.

Alguns indivíduos conseguem identificar os indícios das suas crises. Os mais frequentes são queijos, chocolates, morangos, citrinos, mariscos, vinhos, molhos artificiais, alterações do ritmo de sono, stress, menstruação, jejum, exercício físico, pequenos traumatismos. Outros não os conseguem identificar de todo. Quem toma café regularmente pode ter cefaleias quando interrompe esse hábito.

Sintomas da enxaqueca

A enxaqueca manifesta-se por crises que podem durar entre quatro e 72 horas. A dor é descrita como unilateral, pulsátil (o coração parece bater dentro da cabeça) e de intensidade moderada a severa, agravando-se com a actividade física, com a luz e com o ruído. Em alguns casos, a enxaqueca associa-se a náuseas e vómitos ou mesmo a sintomas neurológicos sensitivos e visuais, as chamadas auras.

As enxaquecas com aura são menos comuns, afectando cerca de 15% das pessoas com este problema, e incluem sintomas neurológicos transitórios, com origem atribuível a certas zonas do encéfalo. Os restantes sinais são idênticos aos da enxaqueca sem aura. As auras mais comuns são perturbações passageiras da visão, sob a forma de perda de visão de um dos lados do campo visual, turvação das imagens, percepção de pontos luminosos, de figuras geométricas ou de ziguezagues brilhantes.

Outras auras podem traduzir-se por formigueiro ou dormência de um lado da face ou de uma das mãos. Há pessoas que têm dificuldades em falar ou mesmo paralisias passageiras dos membros, habitualmente só de um dos lados do corpo. Estas alterações duram cerca de 10 a 30 minutos e antecedem a dor.

Regra geral, os sintomas são intensos e impedem frequentemente o trabalho ou o estudo. Tanto podem ocorrer duas vezes por semana ou apenas algumas ao longo de toda a vida. Geralmente, aparecem de modo recorrente, mas sempre com intervalos completamente livres. Se ocorrer todos os dias, provavelmente existe um uso excessivo de analgésicos ou de outros medicamentos. O abuso de fármacos pode converter uma enxaqueca numa cefaleia crónica diária.

Há pessoas em que aparece preferencialmente ao fim de semana. Estas crises podem ser precipitadas por alterações no horário de sono, pela falha do pequeno-almoço, pela redução do stress ou pelo abuso de bebidas alcoólicas. A alteração de hábitos, e adopção de uma nova rotina ao fim-de-semana pode solucionar o problema.

Nas crianças, a enxaqueca tende a ser bilateral, menos intensa e de duração mais curta. Os vómitos e olheiras podem ser exuberantes. As perturbações de horários de sono e refeições são factores precipitantes comuns. O tratamento destas crises é mais fácil do que no adulto. O sono dá habitualmente bons resultados. Nestas idades a localização occipital não é normal e, quando presente, obriga a uma consulta médica. De igual modo, a presença em crianças muito pequenas de cefaleias com vómitos matinais ou outros sintomas incomuns, devem ser vistas por um profissional de saúde.

Tratamento da enxaqueca

A chave do diagnóstico está na história clínica, no exame físico e neurológico. A observação do fundo de olho é uma parte muito importante destes procedimentos. Em alguns casos, pode ser necessário recorrer à TAC ou à ressonância magnética para excluir outras doenças. A enxaqueca não tem cura mas pode ser controlada.

Existem medicamentos e comportamentos que podem reduzir a frequência, a duração ou a intensidade das crises. O tratamento sintomático, durante os períodos agudos, passa pelo repouso num local sossegado e escuro. Pode-se aplicar pressão ou frio no local da dor. Os analgésicos e anti-inflamatórios são fármacos não específicos de primeira linha para o alívio da dor de cabeça, mas que só actuam nas crises leves ou moderadas. Existem, também, fármacos específicos para a enxaqueca, como os triptanos e a ergotamina que são mais eficazes e actuam mesmo nas crises mais severas.

Prevenção

As pessoas com enxaqueca devem construir calendários que permitam identificar os seus indícios e valorizar o seu impacto na qualidade de vida. O primeiro passo na prevenção consiste na identificação e afastamento dos factores precipitantes, sempre que for possível. Em alguns casos é necessário recorrer a medicamentos de uso diário para diminuir as crises em frequência, duração ou intensidade, mas não existem fármacos especificamente desenvolvidos para a sua prevenção. Contudo, existem alguns utilizados noutros contextos que demonstraram ser eficazes, como os beta-bloqueantes, os antidepressivos ou os antiepiléticos, devendo sempre ser prescritos pelo médico.