José Manuel Rodrigues é o protagonista do podcast 'Rostos da Autonomia' (https://podcasts.dnoticias.pt/rostos-da-autonomia/), uma iniciativa o DIÁRIO com o apoio da Assembleia Legislativa da Madeira que pode ver e ouvir, a partir das 10h00.
O actual líder do CDS e secretário regional de Economia pensava estudar Direito, em Lisboa mas, com 18 anos, em 1978, e quando já era líder da juventude do CDS, foi trabalhar para o Jornal da Madeira que então ainda dirigido por Alberto João Jardim.
Conviveu com aquele que viria a ser um adversário político durante poucos meses, mas manteve-se no jornalismo. Primeiro no ‘Jornal’, depois na Agência de Notícias de Portugal (ANOP), mais tarde na Estação Rádio Madeira, até aceitar um convite da RTP-Madeira e tornar-se um dos rostos da televisão. É nessa altura que se torna o primeiro presidente da Direcção Regional da Madeira do Sindicato dos Jornalistas.
“Foi um acto autonomista porque houve uma certa emancipação em relação ao sindicato nacional, criando uma direcção regional", recorda.
Mas o jornalismo perderia para a política. José Manuel Rodrigues, o entrevistado do podcast ‘Rostos da Autonomia’, uma iniciativa do DIÁRIO com o apoio da Assembleia Legislativa da Madeira, aceita um convite de Ricardo vieira para encabeçar a lista do CDS nas eleições legislativas nacionais de 1995 e fica a pouco mais de mil votos de ser eleito. No ano seguinte é candidato às eleições regionais e entra, pela primeira vez, no parlamento madeirense. Começa um longo ciclo de eleições regionais, entre 1996 e 2025 em que será sempre eleito. Pelo meio, em 2009 e 2011, é eleito deputado à Assembleia da República e também foi vereador na Câmara Municipal do Funchal.
José Manuel Rodrigues conseguiu levar o CDS, em 2011, ao seu melhor resultado, com a eleição de 9 deputados e a passagem a segundo partido no parlamento regional, ultrapassando o PS.
“Em 1995 sou desafiado pelo dr Ricardo Vieira para ser candidato à Assembleia da República. Na altura a Madeira só elegia cinco deputados e fiquei a mil votos da eleição, foi um bom resultado, tive à volta de 17.000 votos o que hoje dava para ser eleito. Mais tarde, em 2009, consegui esse objectivo. Depois pediram-me para ser candidato, em 1996, à Assembleia Regional e sou eleito", lembra.
Um parlamento com confronto político forte mas em que foi possível chegar a posições de consenso, nomeadamente no Estatuto Político-Adminsitrativo.
“Apanhei personalidades que marcaram a vida da Região e Autonomia, desde o dr Alberto João, o padre Martins jr, o ex-padre Edgar Silva, o excelente deputado Paulo Martins, a deputada Guida Vieira, o dr Cabral Fernandes, figuras marcantes do PSD como o dr Cunha e Silva que é o presidente da comissão do Estatuto, em 1999, da qual também fiz parte".
Comparando com o parlamento e a política actual, admite que é cada vez mais difícil recrutar os melhores.
"Tenho de ser o mais franco possível, acho que a política, hoje, tem um problema de recrutamento dos melhores. Isso tem a ver com diversos factores, um deles o facto histórico de, quando a democracia apareceu, e a autonomia, toda a gente quisesse participar. A novidade atrai. Mesmo nos tempos do Liceu havia uma grande politização dos estudantes. Depois a política foi evoluindo e passou a ser altamente escrutinada e incompatível com outras profissões e isso foi, de alguma forma, afunilando a possibilidade de recrutar pessoas de elevada qualidade para a política. Hoje temos um problema de trazer para a política aqueles que são os melhores porque não estão para ser sujeitos a este alto escrutínio que é feito à sua vida política e também pessoal", explica.
Hoje, reconhece, estamos numa democracia "de likes, com a desinformação a reinar nas redes sociais. E como não há regulamentação nas redes sociais é o vale tudo e em alguns casos é o esgoto das frustrações de muitas pessoas, às vezes até de milhares de perfis falsos. Acho que temos de caminhar para a regulamentação das redes sociais. Sou a favor de toda a liberdade de informação, mas liberdade não pode ser ofensa nem insinuação que depois leva a outras coisas".
Da oposição para o governo
Com a mudança de líder no PSD, em 2014, nas primeiras eleições em que os sociais-democratas vão a votos com Miguel Albuquerque a maioria fica presa por um deputado mas, quatro anos depois, o governo regional só é garantido em coligação PSD/CDS.
“Tenho no meu currículo o facto de ter estado no governo e na oposição, ter sido deputado da oposição e deputado da maioria e até presidente da Assembleia numa situação de coligação. Por isso, conheço todo o espectro político e esse vigor do debate", sublinha.
A primeira coligação com o PSD, uma novidade na política regional, teve situações polémicas.
Além de duas secretarias regionais, para o líder do partido, Rui Barreto e Teófilo Cunha, o CDS consegue a presidência do parlamento, exigida por José Manuel Rodrigues.
“Eu tive uma frase na altura que era ‘mil escudos sem um escudo, não são mil escudos’ e até citei a minha avó que dizia isso. O CDS era decisivo e tinha de fazer valer as suas posições, exigiu duas secretarias regionais e a presidência da Assembleia. O PSD aceitava ou então poderia haver outra coligação, dos partidos da oposição”, recorda.
Situação difícil de gerir, sobretudo no PSD que temia ir para a oposição. Questionado sobre se uma coligação da oposição, em 2019, chegou a ser equacionada, José Manuel Rodrigues admite que seria muito difícil.
“Não, verdadeiramente nunca chegou a estar em cima da mesa. O CDS foi namorado pelo PS durante os dias subsequentes à eleição e 209, devo dizer que aquilo que aquilo que propunham ao CDS era quase metade do governo e a presidência da assembleia. Claro que em termos ideológicos, olhando aos quadros de todos os partidos, ao passado de governação da Madeira, à estrutura criada na Região, sócio-económica e política, era arriscado estar a fazer uma coligação dos vários partidos da oposição. Poderia ter sido um momento de mudança na vida política da Madeira, mas ter vários partidos num governo acabar por ser muito complicado. Daí que o CDS tenha optado por fazer a coligação com o dr. Miguel Albuquerque e o PSD que perdura até hoje e devo dizer que as coisas têm corrido bem e em algumas eleições até temos concorrido em conjunto".
Nas últimas eleições, em 2025, o CDS só conseguiu eleger um deputado, mesmo assim essencial para a maioria absoluta, mas José Manuel Rodrigues, de 66 anos, deixou o parlamento para integrar o Governo Regional, com a Secretaria Regional de Economia.
Mais autonomia
Podemos aguentar mais tempo este impasse nas questões a Autonomia? É uma das perguntas a que o secretário regional de Economia responde, na entrevista do podcast 'Rostos da Autonomia'.
“Apesar de o nosso crescimento económico gerar mais receita, não podemos esquecer que a despesa está sempre a crescer, sobretudo a despesa relacionada com a área da saúde e o envelhecimento da população, na área dos assuntos sociais. Para fazer face a este crescimento da despesa temos de ter mais receita e com este constrangimento, esta atrofia legislativa, esta falta de solidariedade financeira do Estado, dificilmente teremos dinheiro para fazer face a este aumento da despesa nos próximos anos. E, das duas uma, ou o Estado revê a lei das finanças das regiões autónomas, assume os custos de soberania, assume os custos de insularidade, é solidário com o facto de termos custos acrescidos pela insularidade e ultraperiferia, ou então o Estado diz às regiões autónomas que não tem condições para fazer isso e dá-nos os poderes legislativos e fiscais para podermos ir à nossa vida. Isto é, termos um sistema fiscal próprio, atractivo que permita captar investimento externo e desoneramos o Estado da responsabilidade de ter solidariedade financeira com a Região".
Uma autonomia que, reconhece na entrevista, é difícil de explicar no continente e lança uma ideia para estes 50 anos.
“Agora, que estamos a comemorar os 50 anos, deveríamos ter, em conjunto com os Açores, acções didácticas, no país inteiro, usando as sedes das câmaras municipais e juntas de freguesia, para explicar e dar a conhecer o que são os regimes político-admnistrativos das regiões autónomas. Levar uma exposição da autonomia a todas as câmaras do país, fazer conferências em todos os municípios. Dar a conhecer o que eram a Madeira e os Açores há 50n anos, o que é que a autonomia representou de progresso e desenvolvimento e, sobretudo, os activos estratégicos que a Madeira e os Açores constituem para Portugal."